A noite fria e silenciosa, aumentava
a tensão e velocidade dos pensamentos dela. Ofegante, subindo as escadas mais
rápido do que desejava, ela se convencia de que não havia alternativa, e que
não voltaria atrás dessa vez. Sempre odiara a vida que tinha, mas também temia
a morte. Que cruel! Presa entre dois estados da alma, por medos e frustrações.
A porta rangeu preguiçosamente
quando ela a empurrou, revelando o terraço do prédio escuro e frio. Andando
vagarosamente em direção à beirada, muitos pensamentos lhe assaltavam a paz que
lhe restava. Pequenas lagrimas escorriam em seu rosto triste e cálido. Seus
últimos minutos de vida seriam regados com lagrimas sentidas. Ninguém notaria a
ausência dela, ninguém jamais saberia como foi sua vida, ou sua morte. Seus
motivos ou razões. Sempre fora sozinha, por que mudaria agora?
Na beirada, fitava ao seu redor com
desinteresse, com o olhar perdido. Luzes e mais luzes iluminavam a cidade,
carros passavam apresados, pessoas rindo e sorrindo em grupos, andavam sem
rumo. Será que eram felizes? Ela se perguntava. Nunca fora a favor das máscaras
que a sociedade usava todos os dias, em todos os meios. Tudo soava tão...
Falso. Como num filme ruim, onde todas as falas e gestos foram ensaiados
metodicamente. Ela nunca fizera parte dessa sociedade, nunca se sentira parte
de lugar nenhum. Como uma peça sobrando, ela era deixada de lado... Excluída.
Por um bom tempo, conseguira conviver com
isso, simplesmente ignorando a indiferença dos demais para com ela. Mas o tempo
foi desgastando sua força de vontade, e a ‘barreira’ que construirá em volta de
si. A cada dia era uma tortura, a cada indiferença e ofensa, uma cicatriz.
Via-se sozinha e isolada, frustrada e amargurada. Nem ao menos conseguia
descansar todas as noites sem seus comprimidos... . Uma dependente,
independente, que irônico. Somente em seus sonhos encontrava alivio, um abrigo.
Um mundo só dela, onde era realizada e feliz. Mas tudo isso acabava com o
alarme das 06h30min, a despertando para o pesadelo... Sua vida.
Mas tudo isso iria acabar naquela
noite, pois diria adeus àquela sociedade hipócrita e cruel, diria adeus a todos
que já a ofenderam, humilharam e fizeram mal. Daria adeus as feridas e
cicatrizes, e as tantas lagrimas que já havia chorado. E por fim, daria adeus à
vida, rumo ao mundo dos sonhos.
Com lagrimas nos olhos, subiu na
beirada, respirando com dificuldade por causa do ar gélido de junho. Estava a
um passo de acabar com tudo, a um passo para o fim da vida. Quando ouviu a
porta ranger atrás dela. Quem seria? Alguém sabia que ela estava lá? Desceu com
cuidado da beirada, e olhou para trás. Uma silhueta esguia vinha em sua direção,
lentamente, com a cabeça levemente abaixada. As mãos nos bolsos, demonstrava
calma e indiferença. Ela esperou petrificada que alguma luz o iluminasse,
revelando a identidade do rapaz. Mas para sua surpresa esse parou ainda no
escuro, aumentando ainda mais o medo dela.
- Quem é você? – Ela indagou
receosa.
Ele não respondeu, somente levantou
a cabeça para fita-la por um breve instante. Ela podia jurar que sentiu um
sorriso nos lábios do desconhecido. O que ele fazia lá? Ele recomeçou sua
caminhada vagarosa, até que finalmente alcançou as poucas luzes que iluminavam
o terraço. Que sujeito singular! Ele era alto, pele pálida e uniforme. Cabelos
louros claros e compridos, que batiam na altura da cintura. Algumas pequenas
mechas lhe caiam sob o rosto, dando um ar misterioso à ele. Suas roupas escuras
pareciam realçar ainda mais a cor de sua pele e cabelos, fazendo-os brilhar de
maneira sobrenatural. Vestia um, sobretudo preto aberto, e uma camiseta justa e
igualmente preta por baixo. Calças levemente justa ao corpo, contornando cada
curva de suas pernas e uma bota preta. Seu corpo era forte e largo.
Ela estava curiosa, e já não sentia
mais medo. Havia um magnetismo misterioso que a envolvia, fazendo-a ter vontade
de estar perto dele, de abraça-lo, mas... Por quê? Nem o conhecia. Sem controle
aparente de suas pernas, se aproximou dele, observando cada detalhe de seu
corpo, de seu rosto. Quando ele a fitou diretamente, conseguiu ver seus olhos.
Ah! Eles diziam muito, mas nada inteligível para ela. Olhos claros e
translúcidos, quase violetas, tinham uma profundidade que ela jamais vira.
- Vai a algum lugar? – Ele perguntou
repentinamente.
Suave voz era quase um sussurro em
seus ouvidos, suave e terna, forte e delicada. Essas poucas palavras tiveram um
efeito peculiar sob nela. A fizeram estremecer. Sem voz para responder, ela
tentou retomar o controle de seu corpo e mente que agora parecia completamente
imersos nele. À passos vacilantes, foi recuando, aumentando a distancia entre
os dois. Ele abriu um pequeno sorriso enquanto fazia exatamente o oposto.
- Não... Se aproxime. – Ela ameaçou
imóvel.
- Não vou lhe machucar Elena.
- Como sabe meu nome? – Seu coração se
acelerou descompassado.
- Do mesmo modo que sei que pretende
se jogar daqui de cima. - Ele sorriu despreocupado.
- Olha não sei quem você ou o que
pretende, mas me deixe em paz! Meus planos não importam a você ou a ninguém!
Ele nada respondeu. Somente a
observou por um momento, a estudando sutilmente, e pôs-se a contemplar o
horizonte, e os barulhos da cidade. Ela não entendia suas atitudes, ou sua
calma inabalável, mas não deixaria que ele interrompesse seus planos. Ela subiu
novamente a beirada, e assim como ele fitava a cidade, e sua movimentação
abaixo deles. Respirava lenta e demoradamente, como se aproveitasse os últimos
minutos de oxigênio.
-Você não vai fazer isso... – Ele
comentou pensativo, com o olhar perdido.
- Afinal quem é você?! – Questionou
com irritação.
- Daniel.
- E como sabia sobre meus planos pra
essa noite?
- Venho lhe observando Elena...
Ela o interrompeu indignada:
-Está me espionando?!
Ele se sentou na beirada onde ela
estava de pé. E ainda com as mãos nos bolsos, suspirou baixinho.
- Por que vai pular? O que vai
ganhar com isso?
- Liberdade.
- Fugir é liberdade?
- Ficar é tortura...
Tarde demais, sua voz estava
embargada, e seu rosto cheio de lagrimas. Ele notando sua melancolia e tristeza
profunda, levantou-se. E sem mais, a pegou pela cintura, trazendo-a para o
chão.
-Você não vai querer fazer isso. –
Ele sussurrou.
Ele a trouxe para perto quando a
colocou no chão. Suas mãos ainda na cintura dela, a seguravam com firmeza,
transmitindo certa segurança, algo que ela nunca sentira antes. Um misto de
alegria e tristeza lhe invadiu. Ela virou o rosto para esconder as lagrimas,
para esconder a dor. Ele a trouxe de volta, olhando-a nos olhos, segurando seu
queixo. Enxugou lentamente algumas lagrimas com o dedo indicador, puxando-a
pela cintura para perto dele, e beijou-lhe delicadamente. Ela deveria ter
impedido, deveria ter parado. Mas se essa fosse sua ultima noite, se permitiria
um ultimo beijo de um estranho.
Seu corpo era quente, e seus lábios delicados.
Suas mãos a seguravam junto a ele, uma na cintura, e outra em seu rosto.
Lagrimas e salivas faziam do beijo molhado e salgado. Mas há muito tempo ela
não se sentia amada. Ele se afastou lentamente, apoiando a testa na testa dela,
de maneira que a olhasse nos olhos, interrompendo o breve beijo, que parecia
ter durado uma vida.
- Não pule. Fique comigo. – Ele
pediu.
Novamente suas palavras mexeram com
ela de um jeito estranho, como um choque elétrico que atravessava todo corpo, a
deixando atordoada. Ela não entendia porque se sentia assim, ou porque ele a
beijara, tampouco porque a pedia para ficar. Mas algo dentro dela sabia que
tudo fazia sentido, sabia que havia esperado por esse momento a vida inteira, e
que agora finalmente estava acontecendo. Sentia que já o conhecia, que já o
amava, e que certamente renunciaria sua vida por ele. Afastando todos esses
sentimentos e pensamentos aparentemente sem sentido, ela retomou o controle de
sua mente, o suficiente para responde-lhe.
- Mas eu não o conheço, e você não
me conhece. Porque pede para que eu fique?
- Elena... – E começou pensativo,
soltando-a do abraço que os unia. – Eu já pulei por você. Abdiquei de tudo que
possuía para ficar com você, não vou perdê-la agora.
Nada fazia sentido. Perguntas e mais
perguntas lhe atormentavam. Do que ele estava falando? Mas antes que ela
pudesse indagar, ele prosseguiu.
- Sei que não se lembra de nada,
esse foi um preço que tivemos que pagar, mas acredite em mim... Não vou
deixa-la novamente.
- Me lembrar do que? Do que está
falando? Conte-me ou eu pulo. – Ameaçou soltando-se do abraço que os unia.
Ela já estava nervosa com a situação e tantos
sentimentos brotando a esmo. Estava cansada, pois não dormira nada há varias noites.
E estava se empenhando muito para controlar seu corpo e mente o que lhe era
exaustivo.
- Vou lembrar-te, mas peço que
mantenha a mente aberta.
Ela assentiu. E assim ele
prosseguiu.
- Eu era um anjo, com a missão de
ajudar os homens em suas dificuldades, mas me apaixonei. Para um anjo isso é
proibido e pode ser fatal. Meu único erro foi amar uma mortal. Abdiquei de minha
posição como anjo, para tornar-me humano, e assim finalmente ficar com ela. Mas
a minha queda, trouxe consequências. Como castigo ela não se lembraria de mim. E
para provar que o amor é mais forte, eu teria que reconquista-la, e se não
conseguisse, viveria apenas um dia após ser rejeitado, e seria banido para o
que vocês chamam de ‘inferno’. - Ele
pausou e suspirou. Parecia sentido. – Ela era você Elena.
Não. Só podia ser brincadeira.
Parecia um filme ou historia de algum livro. Ela estava atordoada e confusa.
- Muito engraçado, você quase me
convenceu. Quanto tempo levou pra bolar essa historia? Uma hora? Já chega me
deixe em paz.
Apesar de seus lábios pronunciarem
tais palavras, seu corpo e alma gritavam para que ela ficasse com ele, ficasse
perto dele. Mas ela já havia sofrido por amor mais vezes do que poderia se
lembrar, e certamente não sofreria no seu ultimo dia de vida. Recusava-se a se
entregar tão fácil, ou alterar seus planos.
- Adeus Daniel. – Ela falou
decidida, subindo na beirada novamente.
Seu coração bateu mais forte, toda
sua vida acabaria ali. Uma súbita vertigem pela altura lhe atingiu, a
desequilibrando... Ela caiu.
-NÃÃOOOOOOOO!!! – Ele gritou.
O vento passava por seu rosto
cortando-lhe a pele, imagens do prédio, de Daniel e das pessoas logo abaixo
passavam mais rápido que seus olhos podiam acompanhar. Ela sentia-se leve,
sentia-se livre... Já não sentia mais medo. Foram os segundos mais longos de
sua vida, que ela aproveitou como pode, registrando-os em sua mente.
Mas algo a segurou, toda queda
cessou abruptamente, o vento parou, e o ar abandonou seus pulmões. A rapidez
com que tudo parou, a deixou realmente aturdida. Sua vista estava embaçada
demais para enxergar com clareza. Estava morta? Logo tudo se tornou tão
distante, tão distorcido. Ouvia barulhos diversos sem identificar nenhum. Ouvia
alguém lhe chamando, mas parecia tão distante. E então veio a escuridão. Seria
o fim?
Ele a segurava firmemente, a
apertava contra o peito como se quisesse fundir seus corpos. Pequenas lagrimas
brotaram de seus olhos, que ele logo afastou de sua visão. A deitou
cuidadosamente no chão, afastando pequenas mechas do cabelo negro sob o rosto.
Rosto pálido e angelical. Olhos cerrados lhe diziam que era o fim, mas o
coração dele dizia que ainda havia esperança. Seu corpo tão menor que o dele,
estava agora sem vida, largado no chão. Lábios rosados e bem desenhados, que
pronunciaram as ultimas palavras, agora estavam fechados e silenciosos. Mãos
que já o tocaram, agora estavam frias e sem força.
- Acorde Elena... Por favor! – Ele
sussurrava para si mesmo, enquanto a balançava inutilmente.
Sentou-se ao lado dela, com o rosto apoiado
nas mãos. Este era o fim. O fim dela, o fim dele... O fim deles. Agora
experimentava o amargo castigo que aceitara quando desistiu de sua posição por
amor. Ele estava agora fadado a viver seu ultimo dia como humano, lamentando a
perda de sua amada. E sentenciado a passar a eternidade preso, seguindo ordens
que não lhe agradavam.
- Daniel? – Ela chamou baixinho, sem
forças.
Num sobressalto, ele levantou-se.
Segurou as mãos dela, e passou a outra mão sob o rosto dela ainda pálida, e de
olhos fechados. Ela estava viva!
-Elena, você está bem?
Ela esforçou-se para sentar,
forçando para que seus pulmões trabalhassem melhor, lhe trazendo mais ar.
Apesar da visão turva, reconhecia Daniel e conhecia onde estavam... No terraço.
Estava morta? Ou isso fazia parte do mundo de sonhos que tanto ansiou fazer
parte?
- Você... Me salvou? – Ela
balbuciou.
- E faria de novo. – Respondeu
forçando um sorriso.
- Como? Eu... Pulei... – Ela
questionava baixinho, tentando entender o que acontecera afinal.
Ele a abraçou forte, como se fizesse
anos que não se viam, e a beijou como se não houvesse amanhã. Levantou-se e
tirou o, sobretudo, e a camisa por baixo, revelando seus braços fortes e tórax
definido. Mas não foi isso que a impressionou, e sim... Suas asas.
Eram negras e enormes, o dobro do
tamanho dele, com penas grandes e lisas. Apesar de serem negras, emitiam um
brilho acetinado e fosco, como uma aura em volta dele. Elas batiam lentamente,
como se fossem levantar voo, e então descansaram em suas costas. Ela jamais
vira algo assim, nem sequer havia imaginado.
- Então... É verdade?
- Eu jamais mentiria pra você.
Ela levantou-se cambaleante, atraída
por aquelas assas. Curiosa sobre Daniel. Ela tocou as assas, eram gélidas e
aveludadas. Tocou cada pena, passando a mãos por toda extensão. Assim como ele,
suas assas também possuíam uma magnetismo incrível, ela podia passar horas
admirando e tocando-as. Ele as abriu, deixando que ela explorasse, e a puxou
para perto, segurando-a pela cintura.
Ela jamais se sentira assim, nunca
havia se sentido querida ou amada. Nunca havia sentido segurança nos braços de
alguém, tampouco sentira sentimentos tão fortes e desconhecidos, ou uma atração
irresistível e viciante. Dizem que uma experiência quase morte, muda sua vida
para sempre. Ela não acreditava nisso, até viver sua própria experiência. Até
morrer e viver de novo, se jogar e ser salva. Sua vida seria melhor agora? Ela
não sabia. Mas ao lado dele, o futuro parecia muito melhor que o passado. O
amor dele, lhe alimentaria mesmo que passasse fome, e seu calor lhe esquentaria
mesmo no inverno mais rigoroso. Ela parou de pensar e começou a sentir, parou
de lutar e passou a aproveitar cada sensação que o contato com ele lhe trazia.
Havia se entregado, de corpo e alma, mesmo antes de admitir para si mesma. Mas
ela sabia, que se ela pulasse, ele a salvaria... Sempre.
Nádia Ramos