terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Distâncias Internas


Estive perto demais, me senti longe demais 
Tive medo de tentar, e medo de perder
O que fazer? 

Dentro de mim só o som do vazio
Perdi algo que nunca tive, sinto falta de quem nunca vi.

No escuro da minha mente, grito em desespero
Como o que não tive me machuca tanto?
Como tudo que sempre quis desistiu de mim?

Grito e esbravejo não ha quem culpar
A não ser a mim mesma.
Não ha como consertar tudo que nunca existiu.
Perdi tudo que sou.




Nádia Ramos

Imortal desassossego


Terra escura, noite fria.
Coração de pedra levo comigo, tão gelado quanto o vento do inverno que sinto.
Ódio estagnado, magoas em minhas entranhas, nada muda há séculos.
Um imortal, vivendo pesadamente arrastando meus pesares, minhas lembranças.
Mente agitada, com emoções revoltas, meu medo invicto.

Nada mais me faz sentido, tudo perdeu a graça.
A morte me é atraente, torturas me parecem brincadeiras,
E a eternidade um verdadeiro castigo. Meu crime?
Amar perdidamente e sonhar sem limites.

Sonhei com dias mais belos, buscava alegrias duradouras.
Amei imensamente. Desejava tê-la para mim e faze-la a mulher mais feliz do mundo!
Mas tudo me foi cruelmente roubado. Minhas esperanças despedaçadas.
Com dois tiros me roubaram o amor, em alguns segundos levaram os minha alma.

Sim, ela se foi. Tomada de mim, sem dó ou compaixão, apagando o futuro que tínhamos juntos.
Isso parece que foi há séculos atrás. Há tantos anos que mal pude aguentar. Há mais dias do que pude contar.
E desde então, estou fadado a viver para sempre, vazio e rancoroso, planejando a minha vingança.

Acusam-me de insensível, gélido. Porque não veem a minha dor, nem minhas tantas lagrimas ou o minhas feridas.
Após tantos anos, já não sou aquele de outrora. O tempo encarregou-se de mudar-me.
Dedicou-se a moldar-me impiedosamente, com os flagelos dos dias.
E hoje sou mais insipido do que jamais fora. Mais forte do que jamais pensei ser.
Meus vazios não serão jamais preenchidos, pois este sempre será o lugar dela. Aind a amo.
De um vampiro sombrio.
Andrei 

Nádia Ramos.

Imensidão Eterna

Minha Dama, a vida não lhe foi justa
As pessoas não lhe foram dóceis
Situações a fizeram sofrer, perdas lhe fizeram chorar

Tu és como pedra bruta que espera ser esculpida,
Como rosas ao tempo, que morreram, estão secas e negras,
Esperam algum cuidado, lamentam o tempo perdido.

Teus olhos contam historias sem fim,
Teus lábios cerram palavras não ditas.
O tempo mostra segredos que jamais serão revelados.

Até quando?
Vida sem vida,
Viver sobrevivendo,
Amar odiando;

Miro as estrelas, de sua luz vejo esperança
Observo a lua, serena e compassiva, dela tiro forças

Lembro-me ti, e descubro em mim o vazio.
Lugar que já te pertencera,
Amor que já lhe dediquei,
Sonho que já vivi;

Morte sem sentido,
Vida um abismo.
Horas e dias se passam,
Inundando meu vazio,
Vazio de ti, vazio de mim, vazio de nós
.

Identidade


Eu sou como me vê
Eu sou os pedaços que encontrar
Eu sou a forma que montar

Eu sou tudo que vê
Eu sou tudo aquilo que você nao vê
E sou tudo o que descobrir.

Ja sabe quem sou?



Nádia Ramos.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Pacto Suicida

Jason era comum aos olhos do mundo, mas muito estranho aos próprios olhos. Havia algo de errado com ele, algo... Quebrado. Pelo menos era isso que todos diziam. Desde gostos e jeitos, à personalidade e crenças, em tudo ele era avesso. Criticas, ofensas e agressão já lhe eram familiares... Rotina. Apesar de ter se habituado a tudo isso, a grande parte dele que foi forçada a se esconder, e manter-se longe da superfície, sufocada, ainda sofria, ainda sentia e ainda gritava. E assim ele passou muitos anos, até... Hoje.
Pela manhã, outro dia monótono começava, levantou-se sem animo, vestiu uma roupa escolhida aleatoriamente, e saiu para trabalhar. Pegou a mesma rota de sempre, encontrou com as mesmas pessoas, mas dessa vez uma dentre elas era singular, e observava Jason atentamente, enquanto fumava um charuto calmamente. Ele vestia um terno preto, gravata vermelha, e possuía um cajado prateado onde se apoiava. Seus olhos eram penetrantes e totalmente desprovidos de vida ou características humana, assim como seu corpo e movimentos. Ao sair do metro e subir a costumeira viela abandonada, ele o surpreendeu:
- Sabe, uma vida é mais do que algumas tentativas inúteis de ser feliz. - Disse o estranho encostado no muro, o fitando de modo assustador.
- E cuidar da sua vida vale mais o seu tempo do que me incomodar. - Respondeu Jason mal humorado.
- Sempre prezei a sinceridade, e por isso tenho algo a lhe ofertar...
- Não quero comprar nada, me deixe em paz!. - Interrompeu Jason recomeçando a caminhar.

- Lhe darei tudo que quiser, em troca de algo que você considera inexistente.
Jason parou de andar, e ainda de costas ponderou as opções, confuso.
- Estou ouvindo.
O estranho esboçou algo similar a um sorriso, e prosseguiu:
- Com apenas algumas palavras, você será o homem mais feliz do mundo.
Jason se virou e o fitou atentamente, levemente tentado:
- O que tenho que fazer?
- Se mate...
Jason não soube responder, e desconfiado, permaneceu em silêncio.
- Se assim fizer se tornara imortal e terá tudo que sempre quis.
Naquele momento, ele pensou na vida que tinha, em tudo que vivera, e tudo que sofreu e ainda sofria. A conclusão mais triste desses pensamentos, era que ele não tinha nada nem ninguém que o impedisse disso, nem algo que o segurasse de fazer besteiras... Nada. Ele era livre e solitário.
- Porque devo acreditar em você? - Jason indagou quase convencido que não recusaria a oferta independente da resposta.
- Porque sou sua melhor oferta.
- Quando e onde?
- Agora e naquele prédio. - O estranho apontou um edifício abandonado próximo dali.
Jason se virou e foi andando quase que mecanicamente. Ao se aproximar, olhou para cima, de onde pularia, uma silhueta familiar já estava lá o esperando. Jason subiu as escadas quase em transe, sem ao mesmo notar já estava no terraço sujo e lotado com entulho.
O estranho já estava a espera, de pé e esboçando sentimentos quase humanos, como alegria e excitação.
Jason por outro lado, estava absorto em tantos sentimentos, emoções e
Lembranças. Porém algo naquele estranho e naquela atmosfera o mantinha calmo, e sob controle toda agressividade e raiva que sempre carregava consigo.
Alguns passos e ele já estava na beirada. O silêncio daquela noite em particular era perturbador e barulhento. A quietude da rua abaixo e do prédio lhe davam a exata sensação de que estava em outra dimensão, uma dimensão sombria e avessa a tudo que ele conhecia.
- A um passo da liberdade... Não é ótimo? - O estranho comentou quase sorrindo.
Sarcasmo? Não importava, Jason estava decidido, pularia e viveria a eternidade longe daquela vida medíocre e vazia. Agora, esperançoso de que tudo mudaria... Ele pulou.




Seu corpo foi encontrado por um casal que passava pelo local na manhã seguinte, e avisou a policia.
Quanto a Jason? Fez um pacto suicida com um ser que se alimenta das sombras, dos medos, sofrimentos e dores... E assim, perdeu a vida.
Renata. 10 de março de 1985.


Nádia Ramos.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Leia-me


12 de dezembro de 2000.
De um lugar distante e escuro.
Estou com medo, não sei onde estou. Tudo esta escuro, tudo em mim dói. Sinto emoções brotando a esmo, sentimentos diversos surgindo sem motivo aparente... Tudo tão confuso. Onde você está? Pode me ajudar? Estou me escondendo de vultos e criaturas, lutando para sobreviver, mas não há comida, não há agua, não há lugar seguro para descansar, nem ao menos há com quem contar... O que aconteceu? Por que estou aqui? Deve ser um castigo. Minha memória esta embaralhada, turva e fragmentada, não me lembro de muito, mas me lembro de você... De nós. Lembro como costumávamos sentar juntos na varanda e ver o pôr do sol abraçados, lembro como passávamos horas conversando enrolados em cobertas nos dias de frio, lembro também das muitas vezes em que tínhamos problemas, brigávamos.... Mas sempre resolvíamos juntos. Sinto sua falta muito mais do que imagina, dói sempre que memórias assim voltam à mente, pois percebo que tudo isso está muito longe de mim, e que eu estou de longe de você. Querido, estou fazendo tudo que posso para entender, para sobreviver e te encontrar, só peço que espere por mim, que a todo fim de tarde se lembre de mim, e que toda manha, me sinta perto do seu coração, pois estaremos juntos em breve, eu acredito nisso... Tenho que acreditar, pois é isso, é você que me dá forças para tentar sair desse pesadelo.

Te amo.

Su.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Uma Carta Pra Você.

Deserto do outro lado, 20 de junho de 2010.



Nada faz sentido, tudo parece distante. Ouço passos, vejo luzes e sombras... Não é você. Pessoas vêm e vão sem ao menos olhar para o lado, não vêm esse lado.
Atormentada com pensamentos aterradores e com imagens assustadoras, apavorada demais para perceber as coisas boas, desconfiada demais para acreditar que mudara. Encolhida aqui pondero minha opções: Quais são as chances? Quem entenderá? Você entende? Consegue me ajudar? Terá paciência? Acho que te peço demais. Tenho que ser capaz de resolver sozinha, enfrentar meus demônios um por um, e saber que não há príncipes de armadura reluzente e eles não vêm em cavalos brancos. Cada um por si. Pessimista demais? Talvez seja o que pensa, mas com isso somente quero gritar ao mundo tudo que sinto, tudo que descobri ao longo dos anos e experiências. Não sou mais uma garotinha, porém não sou mais experiente que você ou ninguém, mas com certeza tivemos experiências diferentes.
Já foi obrigado a engolir as palavras que queria muito dizer? Foi ensinado a manter as aparências e tolerar tudo que não concorda? Creio que não. São de padrões e ensinamentos equivocados que hoje luto para me libertar. Magoas no passado e ações impulsivas que determinaram meu futuro quando eu não entendia, não sabia o que era, o porque daquilo, tão pouco o motivo, mas a cada dia, algo dentro de mim morria... Minha fé na justiça, minha confiança nas pessoas, meu respeito pelos homens... Minha esperança de ser diferente. Hoje, você pode não entender o porquê dessa escuridão que vê nos meus olhos, ou o nó que tenho em minha garganta. Pode até dizer que não foi nada, que tudo podia ser pior e que tenho que seguir em frente... Tem razão, mas não menospreze a dor de ninguém, pois somos diferentes, e sendo assim não reagimos igual aos mesmos estímulos.
 Desse lado a perspectiva muda às mascara caem, os erros aparecem... Nada é o que parece. E dentre tudo isso fica muito difícil ver, acredite em mim. Mesmo desse lado, comecei a forçar meus olhos, a treinar meus ouvidos, e ver algo de bom na vida, em mim e em todos que me rodeiam. A voltar a sentir amor por mim mesma, amor pelo próximo, amor pela minha vida, por estar viva. De todos que passaram por mim, só com você comecei a tentar, comecei a lutar e parar de me esconder. Mesmo que ache meus esforços insignificantes, ou pouco eficazes, continuo indo em direção ao desconhecido por mim, ao futuro que posso ter as opções e que posso escolher... A caminhar sozinha. Notei que ‘culpa’ é uma palavra no dicionário para responsabilizar alguém por um erro nosso, e sendo assim só posso culpar a mim mesma por estar desse lado hoje. Muitos tentaram me ajudar, gritaram, puxaram e jogaram cordas, mas ao meu redor, em meu ser, nada se movia, o deserto continuava tão árido como sempre. Até mesmo pessoas de outros lados me empurraram, usaram magica e truques, mas nenhum obteve sucesso de mudar minha realidade. Sendo assim, fique em paz, saiba que fez tudo que podia, e que agora vou caminhar sozinha... Adeus.

Ao meu querido do outro lado.

Su.

(Nádia  Ramos.)

segunda-feira, 4 de março de 2013

Suicídio por amor


O que é o amor? Qual sua extensão? Como defini-lo? Palavras não conseguem exprimir tal sentimento, mas conseguem esboçar os mais lindos poemas e poesias que narram emoções incríveis e únicas. Somente quem já sentiu pode saber quão belo é sentir seu coração queimar por dentro ao lembrar-se de seu amor, sua respiração se acelerar somente com a menção da pessoa amada, sentir sua alma brilhando em sua intensidade máxima, pois encontrou um pedacinho do amor divino, e finalmente se senti completo, único e amado.
Heitor já sentira, e foi a melhor coisa que lhe aconteceu em toda sua existência nessa terra de ninguém. Ela, Isabelle fora quem o resgatara das trevas, quem o salvou de si mesmo, quem o amou quando ninguém o amava, quem acreditou nele quando nem ele mesmo o fazia. Ela se tornou sua luz, seu guia, uma estrela que o guiaria até o paraíso. Ele desconhecia o amor, pois nunca o sentira, não conhecia a compaixão, pois nunca demonstraram tal afeto a ele, e não conhecia o carinho, pois nunca tivera de ninguém.
Abandonado pela mãe em um orfanato quando era apenas um bebê, ele foi criado por pessoas desconhecidas, com outras crianças que não lhe eram simpáticas. Nunca se sentira em ‘casa’ e nunca se sentiu amado ou querido. Ele era só mais uma criança abandonada pelos pais inconsequentes que não o quiseram sem ao menos saber quem ou como ele era. Injusto sem duvida, e essa dor o consumia por dentro, o fazendo querer manifestar seu pior lado para com todos, como se punisse o mundo pela sua vida miserável. Ele não se considerava lindo então sempre fora tímido e recluso. Ele era alto, pele branca, olhos e cabelos escuros como a noite, e roupas humildes, doadas por famílias mais ricas para o orfanato.
Quando ele achou que estava perdido, que era somente um demônio excluso da sociedade, ela o encontrou. Ela uma menina de classe média, com cabelos loiros compridos até o meio das costas, pele branca, lábios rosados e bem definidos e olhos azuis. Mas que com somente algumas palavras cativou a atenção dele, com apenas um abraço amigo, lhe ganhou o coração. Com ela, ele aprendeu o que é o amor, o que é a vida sem tanta amargura, sem tanta dor. Conseguiu ver o sol pela primeira vez em anos, e notou que no horizonte há muito mais do que o seu pequeno mundo lhe mostrava. Ele não sabia bem o porquê ou como, mas sabia que devia sua vida a ela, e certamente faria de tudo para vê-la feliz, para protegê-la de todo mal que há no mundo, e para ama-la imensamente por toda vida.
Mas nada foi como ele imaginou.
Certo dia, Isabelle lhe visitara no orfanato levando deliciosos lanches como de costume, e ficaram conversando por horas, trocando afetos e caricias, até que ela anunciou sua partida, já estava tarde, e seus pais ficariam preocupados, ela teria de voltar para casa. Ela se foi, arrancando suspiros de Heitor que já com saudades, aguardava ansiosamente a próxima visita. No dia seguinte, na hora combinada, ele a esperou no jardim, mas ela não apareceu. Ele a esperou até o anoitecer, sem sinal de sua vinda. Decepcionado ele retornou ao seu quarto confuso e preocupado - “O que acontecera?” - Ele se perguntava. Decidiu então que lhe faria uma visita no dia seguinte de manha.
Logo cedo enquanto todos ainda dormiam, ele pegou sua mochila com apenas alguns pertences e a lançou nas costas, começando sua longa caminhada até a casa de sua amada. Após vários minutos de caminhada, chegou a humilde residência de Isabelle que apesar de sua aparência peculiar não fora isso que lhe chamou a atenção, e sim policiais e algumas pessoas abraçadas, sentidas, chorando pela perda de alguém. Logo o coração dele se acelerou descompassado, e sua mente se agitou como um mar revolto, agoniado com a possibilidade de que Isabelle estivesse morta.
Ao se aproximar, sua pior suspeita e medo estava diante de seus olhos. Isabelle estava deitada no chão, com sangue em seu vestido, cabelos e mãos... Estava morta. Sem pestanejar ele correu até ela, e segurou seu corpo sem vida, chorando descontroladamente pela sua perda inestimável. Os pais sem entender o puxaram para longe do corpo da filha, lhe fazendo perguntas como:
-Como se atreve? – A mãe dela resmungou entre lagrimas.
-Quem é você rapaz? – O pai dela indagou furioso.
Mas ele não ligava para nenhum dos presentes, sua dor o cegava de tudo. Ele a abraçou mais uma vez e lhe sussurrou no ouvido: Eu vou te encontrar. Mesmo sabendo que ela não escutaria, ele naquele momento fez uma promessa que cumpriria com seu próprio sangue. Limpou algumas lagrimas que lhe embaçavam a visão e se foi, deixando a todos os presentes confusos.
Ele não podia crer, num dia estava feliz e realizado, com sua amada viva e sorridente como sempre, e no outro lhe foi tirada cruelmente. Ele andou mais rápido do que pretendia de volta para o orfanato. Chegando lá, foi direto à biblioteca e começou a pesquisar alguns livros como:
 - Vida após a morte
- Para onde vamos depois de morrer?
- Rituais para comunicação com os espíritos
- Almas perdidas
- Homicidas e suicidas para onde vão?
Munido de tantos livros, passou toda manha e grande parte da tarde estudando a morte, estudando um meio de resgata-la desse cruel destino. Até que um livro lhe chamou a atenção “O astral – lar dos espíritos”. Lá o autor contava um pouco sobre as colônias, os umbrais, as habitações e o modo de vida similar ao da terra. Disse que é possível encontrar parentes e amigos por lá. Apesar do grau de evolução de cada um ser diferente, e alguns não permitir que eles se reconheçam, lembrem-se de suas vidas ou se mostrem na forma como eram em vida, eles são as mesmas almas que um dia habitaram um corpo. E assim passou o restante da noite lendo, e estudando ‘o astral’, porem adormeceu em cima dos livros.
O sol ainda não mostrava sinal de apontar no horizonte quando ele acordou e notou que dormira na biblioteca. Lembrando-se de tudo que lera e estudara já bastou para que ele tivesse um plano em mente. Tudo que lera era o suficiente para se preparar para sua jornada atrás de Isabelle. Ele a ajudaria naquele novo estado de espirito e ficaria com ela, cuidaria para que não sofresse, pois não merecia.
Levantou-se e foi até a cozinha, onde guardavam os produtos de limpeza, e procurando um pouco encontrou o que procurava... Veneno para ratos. Pegou duas colheres e despejou o conteúdo do veneno num copo, o encheu de leite e tomou. Sentou-se no chão esperando que o veneno fizesse efeito, enquanto em sua mente só tinha espaço para Isabelle. Ela o salvara uma vez, agora ele a salvaria. Não demorou muito para que sentisse horríveis dores no peito, falta de ar e convulsões, após alguns minutos agonizando... Ele morreu.
Estava tudo escuro, tudo ainda doía como antes, seu nome era chamado diversas vezes por algumas vozes que ainda não reconhecia.
-Acorde! Heitor o que você fez!?
Cada palavra dita criava um ecoo em sua mente... Acorde, Acorde, Acorde!- Ele esforçou-se para abrir os olhos, e viu-se no chão da cozinha ainda. – Será que o veneno não funcionou? – Ele se perguntava. Ao se levantar cambaleante viu algo que não estava nos livros... Seu próprio corpo ainda deitado, desacordado e sendo balançado pelas cozinheiras do orfanato. Sim, deu certo, ele já estava do outro lado. Assustado por ver seu próprio corpo, mas orgulhoso pelo andamento de seu plano, ele se afastou de lá, tentando lembrar-se como chegar até Isabelle. Andando na rua fria, iluminada por pequenos raios de sol e pouco movimentada por paramédicos, ambulância e policia, tudo que ele conseguia pensar era nela. Seu sorriso, seu jeito, seus abraços e caricias e de todo tempo que passaram juntos. Tais lembranças injetaram uma dose de coragem nele, que disse baixinho – Já estou indo Isabelle!
Ao pensar nela tão fortemente, ele se sentiu ‘puxado’ por algo, que o levou a um lugar até então desconhecido. Tudo era escuro, havia arvores sem folhas, secas e sem vida, poças d’agua pelo chão, como se tivesse acabado de chover, o céu estava escuro como se anunciasse numa tempestade sem fim, e mais a frente vultos caminhavam como zumbis. Alguns balbuciavam frases sem sentido, outros gritavam para o nada, outros ainda gemiam e choravam. Ele ainda não sabia, mas estava no umbral.
-Ela esta aqui?- Ele se perguntou.
Foi andando lentamente, procurando entre todos que via o rosto dela, ou ao menos algum sinal. Enquanto procurava se sentia cansado, como se lhe faltasse o ar, sentia por vezes dores no peito e até sede, mas nada disso o faria parar, ele fizera uma promessa e cumpriria. Passou varias horas que pareciam dias procurando por ela, lagrimas de saudades rolavam em seu rosto, imagens de como ele a vira no chão, cheia de sangue, com os olhos cerrados e corpo sem vida o partia no meio de tanta dor. – O que acontecera com ela? Quem fizera tamanha crueldade?- Ele indagava inconformado.
Após dias procurando sem sucesso ele cedeu ao cansaço e tristeza. Esse lugar parecia ser infinito! Por mais que andasse nada parecia mudar, e pior ainda, sem sinal dela. Ele nunca fora um rapaz religioso, nem ao menos acreditava totalmente que havia um Deus, mas nesse momento, juntou toda fé que lhe restava, olhou para o céu e suplicou: Deus! Ajude-me a encontra-la! Quero cuidar dela... Não quero ficar sozinho. Seu pranto se tornou mais forte, enquanto ele socava o chão debaixo dele, com raiva por tudo isso, com saudades e com a maior dor que jamais imaginou sentir, ele ouviu:
-Precisa de ajuda meu irmão?
Essas palavras o assustaram, pois todos lá pareciam ter perdido a lucidez para formar qualquer frase lógica para iniciar uma conversa. Ao se levantar e fitar quem havia pronunciado aquela frase se deparou com um rapaz jovem, talvez tão jovem quanto ele. Tinha cabelos enrolados e curtos, negros, pele parda, olhos negros, e vestia calca e camisa branca. Porém antes mesmo de Heitor questionar quem ele era, esse sorriu amigavelmente e respondeu:
-Sou Moura. Vim das colônias ajudar os irmãos aqui no umbral. Ouvi seu pranto. – Ele sorriu amigavelmente.
-Umbral? Sabe onde está Isabelle? – Ele disparou.
-Não se preocupe com ela nesse momento, cuidaremos de você primeiro. Venha. – E lhe estendeu a mão.
Heitor pouco desconfiado de tanta gentiliza hesitou, porém realmente precisava de ajuda, e precisava procurar Isabelle. Relutante ele pegou a mão de Moura, aceitando sua ajuda. Esse o abraçou e voou por cima do umbral, fazendo o caminho de volta para as colônias. Em poucos minutos eles chegaram a uma instalação peculiar, um prédio de tijolos escuros, com uma porta pequena de madeira. Moura lhe apresentou outros dois companheiros, João e Daniel que o acompanhariam a partir dali.
Eles adentraram o local, que tinha apenas pequenas velas espalhadas por todo local, como se fosse uma espécie de caverna ou câmera. Ao prosseguir por um estreito corredor João lhe indicou uma cama simples, onde ele deveria descansar.
- Eu preciso encontrar Isabelle! Vocês a conhecem? Por favor, me ajudem! – Ele disparou desesperado por encontrar sua amada.
- Sim, ela chegou há poucos dias, esta se recuperando. Assim que apresentar melhora, eu o levarei lá pessoalmente, não se preocupe e descanse.
Muito relutante, mas realmente cansado, ele se deitou e logo adormeceu. Sonhou com Isabelle naquele umbral, suja, cheia de sangue, chorando e pedindo ajuda, sem que ninguém desse ouvidos a ela... Acordou com os olhos cheios d’agua, quando notou que ela estava sentada próxima a sua cama, o observando dormir.
-Isabelle?!
Ele se levantou rapidamente e a abraçou forte, lagrimas e mais lagrimas escorriam de seu rosto emocionado, a saudade e a dor se misturavam naquele momento, mas nada mais importava, ele finalmente a encontrara.
-Heitor, como veio parar aqui? Você também morreu? – Ela indagou confusa.
-Sim, vim por você. – Ele falou sorrindo.
-Você se matou... Por mim? – Ela questionou impressionada.
- Eu não podia perdê-la... Te amo muito e prometi que nunca te deixaria sozinha, e não vou deixar nunca mais.!
Ela emocionada, o abraçou fortemente, e respondeu.
- E não importa para onde você vá, eu sempre vou te achar. Te amo.


Nádia Ramos.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Conquista da Liberdade

Um dia triste nublado e chuvoso típico do inverno. Ele subiu na montanha mais alta, enquanto seus olhos lamentavam a sua decisão. 
- É isso. Aqui é onde minha história termina. - Disse ao chegar, decidido e carregado de raiva.
Jason estava a um passo para tirar a própria vida. No topo de uma montanha, ele olhava de la de cima se perguntando se era alto suficiente para lhe causar uma morte rápida. 
A cena era própria de um filme de drama, sua vida era o roteiro, que lhe dizia que tudo tinha de terminar. Observando a vastidão do abismo a sua frente, ele se deixou levar por lembranças melancolicamente.
Lembrou-se de sua infância, de como sempre fora isolado do mundo pelos pais super-protetores, de como eles os tratavam como uma criança débil e incapaz de tomar decisões ou fazer amigos. Lembrou-se de todas as escolhas erradas que ele deixou que fossem tomadas por ele, por inércia. De como sua vida fora pautada pelo gosto dos pais, o forçando a viver seus sonhos, seus quereres, modificando sua personalidade, reprimindo talentos e lhe tirando o direito de expressão. Lembrou-se o quanto tentava agradar os pais se obrigando a ser quem eles queriam que ele fosse, mesmo que isso o machucasse por dentro. A cada sorriso forçado, a cada ato comandado, uma parte dele morria lentamente. Tudo em vão, pois seus pais nunca lhe aprovaram, sempre havia algo para reclamar, para corrigir, para melhorar, frustrando assim cada tentativa dele. 
Então lembrou-se de seu primeiro amor, Andreia. Uma simples vendedora de flores na praça, mas que com um sorriso roubou-lhe o ar. Lembrou o quanto lutara para estar ao lado dela, enfrentando os pais, brigando para reverter anos de submissão e ser livre. Lembrou-se de quando notou que tudo fora em vão, pois Andreia morrera, e foi pelas mãos de seus próprios pais. Eles contrataram um assassino profissional para tirar a vida da mulher que amava, o privando de sua companhia e um possível futuro ao lado dela. 
Tudo que fizeram pela vaidade de criar uma marionete para que controlassem como bem queriam. Nunca se importaram com o que ele sente, em como se sentia. Não, estavam ocupados demais vivendo a vida que roubaram para si.
Mas nada disso teria sentido em apenas um passo, pois seria esse que lhe salvaria de viver, que o libertaria dessa prisão sem grilhões. 
Com lagrimas mistas nos olhos, de felicidade à sensação de liberdade... Ele pulou.

Nádia Ramos
04/02

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Amor Proibido


Noite escura com vento parado, somente grunhidos da floresta eram audíveis a ela. Corria sem rumo, sem esperança. Seus olhos embaçados pelo choro dificultavam a corrida, que vez ou outra tropeçava num galho ou raiz de arvore. Ela não podia acreditar, tudo que sempre esperou lhe foi tirado, tudo que sempre quis, despedaçado bem na sua frente. Seus pais a sentenciaram a uma vida solitária, ou a um casamento forçado. 

Os pais dele o sentenciaram a servir o rei como cavaleiro, ou casar-se com uma princesa de um reino próximo. Mas tudo que eles queriam era estar juntos. Burlavam as regras de seus pais sempre que podiam, para passar algum tempo a sós, entre beijos e caricias. Há muito planejavam confronta-los, e dizer-lhes toda verdade, e esse dia foi hoje. Ele e ela os enfrentaram juntos, durante um jantar de negócios entre as famílias... Não, jamais imaginariam a reação deles, mesmo que pensassem por anos, jamais saberiam quais atitudes tomariam, mesmo que os sondasse suas mentes... Tudo foi uma surpresa, e um grande desastre. Ele seria enforcado, e ela seria presa.

Pensamentos como esses traziam mais e mais lagrimas para seu rosto, e fazia com que sentisse raiva de seus pais, raiva de sua vida, raiva de seu destino. Como o salvaria? Como se salvaria? Para quem pediria ajuda? Não, estava sozinha, abandonada a própria sorte. Mas ela não se entregaria sem lutar, não se deixaria vencer pela situação, seu amor superava tudo, sua vontade de estar com ele era maior que sua dor naquele momento.

Após minutos de corrida, chegou a uma clareira iluminada somente pela lua. Precisava se esconder, precisava de um plano. Para onde teriam levado ele? Ele teria escapado? Tudo que se lembrava era de sua voz ecoando no saguão enquanto lutava pra se libertar dos guardas.

- Corra Briana!  - Ele gritou.

Ela saiu sem olhar para trás, e agora não sabia se seu amado estava vivo ou morto. Ela deixou-se vencer pelo cansaço por um momento, se sentando no chão da floresta, com a mão cobrindo o rosto ainda chorando. A borda de seu vestido caiu levemente em volta dela, escondendo suas pernas e pés. Seus cabelos negros e cacheados lhe caindo sobre o ombro e rosto, sua pele pálida, estava rosada pela corrida. Seu vestido era preto e simples, preso no busto e com duas mangas curtas, davam a ela um ar triste e melancólico, como uma ninfa presa em um sonho.

Quando ela se sentiu vazia de ideias, cansada e triste demais para se mexer, sentiu alguém se aproximando. Ouvia barulhos de folhas e grama se mexendo estava próximo demais, tarde demais para correr, teria de lutar por sua vida. Agarrou um galho ligeiramente pontudo, e o empunhou como se fosse uma espada, que devia defende-la. O estranho chegou, sua silhueta era visível, porém sua aparência ainda não, pois estava debaixo das arvores, onde não havia a luz da lua.

- Briana?

-Dominik?

Sem perder tempo, ele correu até ela e a abraçou. Ela largou o galho de arvore que empunhava e retribuiu o abraço fortemente. Ele estava vivo! Estava bem! Ainda havia esperança para eles. Ela não pode conter a alegria e o choro pela surpresa. Novamente se sentou ainda o abraçando, o trazendo para perto... O tempo que estiveram longe parecia ter sido uma eternidade, mas nada mais importava agora, pois estavam finalmente juntos, ali na floresta, abraçados. Ele levantou seu rosto, de maneira que pudesse contemplar sua beleza. Olhos cerrados e rosto molhado foi como ele a viu.  Não... Não suportou ver tamanha tristeza em sua amada, e certamente não a deixaria sozinha novamente... Nunca mais.

- Consegui fugir pouco depois que você saiu. Sabia que a encontraria aqui, e vim o mais rápido que pude.
Ela abriu levemente os olhos para fita-lo. Tais olhos que já sorriram sempre que o viam, agora estavam mareados e tristes. Ele prosseguiu.

- Vamos fugir para um condado pequeno, e lá ficaremos juntos... Eu prometo. - Disse limpando pequenas lagrimas de seus olhos.

Ela não se cansava de olhar para ele. Seus cabelos escuros e curtos lhe caiam sob os olhos e testa, seus olhos claros iluminavam o rosto, seus lábios e sorriso eram simplesmente perfeitos demais para que ela deixasse de notar. Seus ombros largos agora com uma camisa branca surrada, suja e rasgada que mostrava parte de seu peito, sua calça e botas pretas igualmente sujas, não faziam jus ao seu dono... Mas ela o amava de qualquer jeito.

Aninhada em seu peito, como se escondesse a dor ela permaneceu, enquanto ele a abraçava como se fosse defende-la de um inimigo invisível. Por um breve instante, ela olhou para cima e o beijou lenta e demoradamente, o puxando para perto... Como se fosse registar isso em seu coração, para que nunca se esquecesse de que entre eles havia amor. 
Nádia Ramos.

sábado, 25 de agosto de 2012

Dark Angel


A noite fria e silenciosa, aumentava a tensão e velocidade dos pensamentos dela. Ofegante, subindo as escadas mais rápido do que desejava, ela se convencia de que não havia alternativa, e que não voltaria atrás dessa vez. Sempre odiara a vida que tinha, mas também temia a morte. Que cruel! Presa entre dois estados da alma, por medos e frustrações.

A porta rangeu preguiçosamente quando ela a empurrou, revelando o terraço do prédio escuro e frio. Andando vagarosamente em direção à beirada, muitos pensamentos lhe assaltavam a paz que lhe restava. Pequenas lagrimas escorriam em seu rosto triste e cálido. Seus últimos minutos de vida seriam regados com lagrimas sentidas. Ninguém notaria a ausência dela, ninguém jamais saberia como foi sua vida, ou sua morte. Seus motivos ou razões. Sempre fora sozinha, por que mudaria agora?

Na beirada, fitava ao seu redor com desinteresse, com o olhar perdido. Luzes e mais luzes iluminavam a cidade, carros passavam apresados, pessoas rindo e sorrindo em grupos, andavam sem rumo. Será que eram felizes? Ela se perguntava. Nunca fora a favor das máscaras que a sociedade usava todos os dias, em todos os meios. Tudo soava tão... Falso. Como num filme ruim, onde todas as falas e gestos foram ensaiados metodicamente. Ela nunca fizera parte dessa sociedade, nunca se sentira parte de lugar nenhum. Como uma peça sobrando, ela era deixada de lado... Excluída.

Por um bom tempo, conseguira conviver com isso, simplesmente ignorando a indiferença dos demais para com ela. Mas o tempo foi desgastando sua força de vontade, e a ‘barreira’ que construirá em volta de si. A cada dia era uma tortura, a cada indiferença e ofensa, uma cicatriz. Via-se sozinha e isolada, frustrada e amargurada. Nem ao menos conseguia descansar todas as noites sem seus comprimidos... . Uma dependente, independente, que irônico. Somente em seus sonhos encontrava alivio, um abrigo. Um mundo só dela, onde era realizada e feliz. Mas tudo isso acabava com o alarme das 06h30min, a despertando para o pesadelo... Sua vida.

Mas tudo isso iria acabar naquela noite, pois diria adeus àquela sociedade hipócrita e cruel, diria adeus a todos que já a ofenderam, humilharam e fizeram mal. Daria adeus as feridas e cicatrizes, e as tantas lagrimas que já havia chorado. E por fim, daria adeus à vida, rumo ao mundo dos sonhos.

Com lagrimas nos olhos, subiu na beirada, respirando com dificuldade por causa do ar gélido de junho. Estava a um passo de acabar com tudo, a um passo para o fim da vida. Quando ouviu a porta ranger atrás dela. Quem seria? Alguém sabia que ela estava lá? Desceu com cuidado da beirada, e olhou para trás. Uma silhueta esguia vinha em sua direção, lentamente, com a cabeça levemente abaixada. As mãos nos bolsos, demonstrava calma e indiferença. Ela esperou petrificada que alguma luz o iluminasse, revelando a identidade do rapaz. Mas para sua surpresa esse parou ainda no escuro, aumentando ainda mais o medo dela.

- Quem é você? – Ela indagou receosa.

Ele não respondeu, somente levantou a cabeça para fita-la por um breve instante. Ela podia jurar que sentiu um sorriso nos lábios do desconhecido. O que ele fazia lá? Ele recomeçou sua caminhada vagarosa, até que finalmente alcançou as poucas luzes que iluminavam o terraço. Que sujeito singular! Ele era alto, pele pálida e uniforme. Cabelos louros claros e compridos, que batiam na altura da cintura. Algumas pequenas mechas lhe caiam sob o rosto, dando um ar misterioso à ele. Suas roupas escuras pareciam realçar ainda mais a cor de sua pele e cabelos, fazendo-os brilhar de maneira sobrenatural. Vestia um, sobretudo preto aberto, e uma camiseta justa e igualmente preta por baixo. Calças levemente justa ao corpo, contornando cada curva de suas pernas e uma bota preta. Seu corpo era forte e largo.

Ela estava curiosa, e já não sentia mais medo. Havia um magnetismo misterioso que a envolvia, fazendo-a ter vontade de estar perto dele, de abraça-lo, mas... Por quê? Nem o conhecia. Sem controle aparente de suas pernas, se aproximou dele, observando cada detalhe de seu corpo, de seu rosto. Quando ele a fitou diretamente, conseguiu ver seus olhos. Ah! Eles diziam muito, mas nada inteligível para ela. Olhos claros e translúcidos, quase violetas, tinham uma profundidade que ela jamais vira.

- Vai a algum lugar? – Ele perguntou repentinamente.

Suave voz era quase um sussurro em seus ouvidos, suave e terna, forte e delicada. Essas poucas palavras tiveram um efeito peculiar sob nela. A fizeram estremecer. Sem voz para responder, ela tentou retomar o controle de seu corpo e mente que agora parecia completamente imersos nele. À passos vacilantes, foi recuando, aumentando a distancia entre os dois. Ele abriu um pequeno sorriso enquanto fazia exatamente o oposto.

- Não... Se aproxime. – Ela ameaçou imóvel.

- Não vou lhe machucar Elena.

- Como sabe meu nome? – Seu coração se acelerou descompassado.

- Do mesmo modo que sei que pretende se jogar daqui de cima. - Ele sorriu despreocupado.

- Olha não sei quem você ou o que pretende, mas me deixe em paz! Meus planos não importam a você ou a ninguém!

Ele nada respondeu. Somente a observou por um momento, a estudando sutilmente, e pôs-se a contemplar o horizonte, e os barulhos da cidade. Ela não entendia suas atitudes, ou sua calma inabalável, mas não deixaria que ele interrompesse seus planos. Ela subiu novamente a beirada, e assim como ele fitava a cidade, e sua movimentação abaixo deles. Respirava lenta e demoradamente, como se aproveitasse os últimos minutos de oxigênio.

-Você não vai fazer isso... – Ele comentou pensativo, com o olhar perdido.

- Afinal quem é você?! – Questionou com irritação.

- Daniel.

- E como sabia sobre meus planos pra essa noite?

- Venho lhe observando Elena...

Ela o interrompeu indignada:

-Está me espionando?!

Ele se sentou na beirada onde ela estava de pé. E ainda com as mãos nos bolsos, suspirou baixinho.

- Por que vai pular? O que vai ganhar com isso?

- Liberdade.

- Fugir é liberdade?

- Ficar é tortura...

Tarde demais, sua voz estava embargada, e seu rosto cheio de lagrimas. Ele notando sua melancolia e tristeza profunda, levantou-se. E sem mais, a pegou pela cintura, trazendo-a para o chão.

-Você não vai querer fazer isso. – Ele sussurrou.

Ele a trouxe para perto quando a colocou no chão. Suas mãos ainda na cintura dela, a seguravam com firmeza, transmitindo certa segurança, algo que ela nunca sentira antes. Um misto de alegria e tristeza lhe invadiu. Ela virou o rosto para esconder as lagrimas, para esconder a dor. Ele a trouxe de volta, olhando-a nos olhos, segurando seu queixo. Enxugou lentamente algumas lagrimas com o dedo indicador, puxando-a pela cintura para perto dele, e beijou-lhe delicadamente. Ela deveria ter impedido, deveria ter parado. Mas se essa fosse sua ultima noite, se permitiria um ultimo beijo de um estranho.

Seu corpo era quente, e seus lábios delicados. Suas mãos a seguravam junto a ele, uma na cintura, e outra em seu rosto. Lagrimas e salivas faziam do beijo molhado e salgado. Mas há muito tempo ela não se sentia amada. Ele se afastou lentamente, apoiando a testa na testa dela, de maneira que a olhasse nos olhos, interrompendo o breve beijo, que parecia ter durado uma vida.

- Não pule. Fique comigo. – Ele pediu.

Novamente suas palavras mexeram com ela de um jeito estranho, como um choque elétrico que atravessava todo corpo, a deixando atordoada. Ela não entendia porque se sentia assim, ou porque ele a beijara, tampouco porque a pedia para ficar. Mas algo dentro dela sabia que tudo fazia sentido, sabia que havia esperado por esse momento a vida inteira, e que agora finalmente estava acontecendo. Sentia que já o conhecia, que já o amava, e que certamente renunciaria sua vida por ele. Afastando todos esses sentimentos e pensamentos aparentemente sem sentido, ela retomou o controle de sua mente, o suficiente para responde-lhe.

- Mas eu não o conheço, e você não me conhece. Porque pede para que eu fique?

- Elena... – E começou pensativo, soltando-a do abraço que os unia. – Eu já pulei por você. Abdiquei de tudo que possuía para ficar com você, não vou perdê-la agora.

Nada fazia sentido. Perguntas e mais perguntas lhe atormentavam. Do que ele estava falando? Mas antes que ela pudesse indagar, ele prosseguiu.

- Sei que não se lembra de nada, esse foi um preço que tivemos que pagar, mas acredite em mim... Não vou deixa-la novamente.

- Me lembrar do que? Do que está falando? Conte-me ou eu pulo. – Ameaçou soltando-se do abraço que os unia.

Ela já estava nervosa com a situação e tantos sentimentos brotando a esmo. Estava cansada, pois não dormira nada há varias noites. E estava se empenhando muito para controlar seu corpo e mente o que lhe era exaustivo.

- Vou lembrar-te, mas peço que mantenha a mente aberta.

Ela assentiu. E assim ele prosseguiu.

- Eu era um anjo, com a missão de ajudar os homens em suas dificuldades, mas me apaixonei. Para um anjo isso é proibido e pode ser fatal. Meu único erro foi amar uma mortal. Abdiquei de minha posição como anjo, para tornar-me humano, e assim finalmente ficar com ela. Mas a minha queda, trouxe consequências. Como castigo ela não se lembraria de mim. E para provar que o amor é mais forte, eu teria que reconquista-la, e se não conseguisse, viveria apenas um dia após ser rejeitado, e seria banido para o que vocês chamam de ‘inferno’. -  Ele pausou e suspirou. Parecia sentido. – Ela era você Elena.

Não. Só podia ser brincadeira. Parecia um filme ou historia de algum livro. Ela estava atordoada e confusa.

- Muito engraçado, você quase me convenceu. Quanto tempo levou pra bolar essa historia? Uma hora? Já chega me deixe em paz.

Apesar de seus lábios pronunciarem tais palavras, seu corpo e alma gritavam para que ela ficasse com ele, ficasse perto dele. Mas ela já havia sofrido por amor mais vezes do que poderia se lembrar, e certamente não sofreria no seu ultimo dia de vida. Recusava-se a se entregar tão fácil, ou alterar seus planos.

- Adeus Daniel. – Ela falou decidida, subindo na beirada novamente.
Seu coração bateu mais forte, toda sua vida acabaria ali. Uma súbita vertigem pela altura lhe atingiu, a desequilibrando... Ela caiu.

-NÃÃOOOOOOOO!!! – Ele gritou.

O vento passava por seu rosto cortando-lhe a pele, imagens do prédio, de Daniel e das pessoas logo abaixo passavam mais rápido que seus olhos podiam acompanhar. Ela sentia-se leve, sentia-se livre... Já não sentia mais medo. Foram os segundos mais longos de sua vida, que ela aproveitou como pode, registrando-os em sua mente.

Mas algo a segurou, toda queda cessou abruptamente, o vento parou, e o ar abandonou seus pulmões. A rapidez com que tudo parou, a deixou realmente aturdida. Sua vista estava embaçada demais para enxergar com clareza. Estava morta? Logo tudo se tornou tão distante, tão distorcido. Ouvia barulhos diversos sem identificar nenhum. Ouvia alguém lhe chamando, mas parecia tão distante. E então veio a escuridão. Seria o fim?

Ele a segurava firmemente, a apertava contra o peito como se quisesse fundir seus corpos. Pequenas lagrimas brotaram de seus olhos, que ele logo afastou de sua visão. A deitou cuidadosamente no chão, afastando pequenas mechas do cabelo negro sob o rosto. Rosto pálido e angelical. Olhos cerrados lhe diziam que era o fim, mas o coração dele dizia que ainda havia esperança. Seu corpo tão menor que o dele, estava agora sem vida, largado no chão. Lábios rosados e bem desenhados, que pronunciaram as ultimas palavras, agora estavam fechados e silenciosos. Mãos que já o tocaram, agora estavam frias e sem força.

- Acorde Elena... Por favor! – Ele sussurrava para si mesmo, enquanto a balançava inutilmente.

Sentou-se ao lado dela, com o rosto apoiado nas mãos. Este era o fim. O fim dela, o fim dele... O fim deles. Agora experimentava o amargo castigo que aceitara quando desistiu de sua posição por amor. Ele estava agora fadado a viver seu ultimo dia como humano, lamentando a perda de sua amada. E sentenciado a passar a eternidade preso, seguindo ordens que não lhe agradavam.

- Daniel? – Ela chamou baixinho, sem forças.

Num sobressalto, ele levantou-se. Segurou as mãos dela, e passou a outra mão sob o rosto dela ainda pálida, e de olhos fechados. Ela estava viva!

-Elena, você está bem?

Ela esforçou-se para sentar, forçando para que seus pulmões trabalhassem melhor, lhe trazendo mais ar. Apesar da visão turva, reconhecia Daniel e conhecia onde estavam... No terraço. Estava morta? Ou isso fazia parte do mundo de sonhos que tanto ansiou fazer parte?

- Você... Me salvou? – Ela balbuciou.

- E faria de novo. – Respondeu forçando um sorriso.

- Como? Eu... Pulei... – Ela questionava baixinho, tentando entender o que acontecera afinal.

Ele a abraçou forte, como se fizesse anos que não se viam, e a beijou como se não houvesse amanhã. Levantou-se e tirou o, sobretudo, e a camisa por baixo, revelando seus braços fortes e tórax definido. Mas não foi isso que a impressionou, e sim... Suas asas.
Eram negras e enormes, o dobro do tamanho dele, com penas grandes e lisas. Apesar de serem negras, emitiam um brilho acetinado e fosco, como uma aura em volta dele. Elas batiam lentamente, como se fossem levantar voo, e então descansaram em suas costas. Ela jamais vira algo assim, nem sequer havia imaginado.

- Então... É verdade?


- Eu jamais mentiria pra você.

Ela levantou-se cambaleante, atraída por aquelas assas. Curiosa sobre Daniel. Ela tocou as assas, eram gélidas e aveludadas. Tocou cada pena, passando a mãos por toda extensão. Assim como ele, suas assas também possuíam uma magnetismo incrível, ela podia passar horas admirando e tocando-as. Ele as abriu, deixando que ela explorasse, e a puxou para perto, segurando-a pela cintura.

Ela jamais se sentira assim, nunca havia se sentido querida ou amada. Nunca havia sentido segurança nos braços de alguém, tampouco sentira sentimentos tão fortes e desconhecidos, ou uma atração irresistível e viciante. Dizem que uma experiência quase morte, muda sua vida para sempre. Ela não acreditava nisso, até viver sua própria experiência. Até morrer e viver de novo, se jogar e ser salva. Sua vida seria melhor agora? Ela não sabia. Mas ao lado dele, o futuro parecia muito melhor que o passado. O amor dele, lhe alimentaria mesmo que passasse fome, e seu calor lhe esquentaria mesmo no inverno mais rigoroso. Ela parou de pensar e começou a sentir, parou de lutar e passou a aproveitar cada sensação que o contato com ele lhe trazia. Havia se entregado, de corpo e alma, mesmo antes de admitir para si mesma. Mas ela sabia, que se ela pulasse, ele a salvaria... Sempre.

Nádia Ramos

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Mundo Esquecido

Vaga solitária pela vida,
Renega e rejeita a todos.
Sem ímpeto ou escrúpulos,
Feri e destrói, para preservar sua segurança.

Pobre ninfa.
Cativa de seus medos, escrava do destino.
Padece em silêncio, chorando escondido.
Por debaixo de suas máscaras, tudo encobre.

Mundo escuro e gélido,
Tudo que vê a sua volta, sem principio ou fim, sem saída.
Injurias da morte, perdas da vida, de nada lhe servem,
Pois tudo a consome.

Amarga, atroz. Bela, sedutora.
Mundo perdido, ha muito esquecido.
Amor? Compaixão? Desconhece.
Há muito que não vê e muito que não sabe.
Arrastando grilhões, soluçando em silêncio.
Coração de pedra, olhos vidro.

Querida Rosa negra, não se desespere.
Pois vou encontra-la, vou ensina-la,
Na escuridão não ficará, sozinha não permanecerá.

Pois junto-me a ti, compartilho de sua dor.
E então, seremos dois andarilhos solitários, vagando pela vida.



Nádia

segunda-feira, 18 de junho de 2012

De Toda Sorte

Eis minha historia, minha lamuria.
Fui acusado erroneamente, por atos refugos que não cometi.
Obrigado a provar minha inocência, procurei com afinco por provas, trabalho vão.

Ameaçado e acusado, abandonei meu lar, minha família e minha amada. Encarcerado.

Em prantos fiquei, no silêncio, no escuro, sozinho e perdido.
Jurei a mim mesmo que não desanimaria, que tentaria fugir a cada momento, que a procuraria ate meu ultimo suspiro e a encontraria novamente.

Minha dama, não chores por mim, não sofras sozinha.
Meu coração não aguentaria saber que tais olhos lacrimejam por mim, que tal beleza foi ofuscada pela tristeza. Seria pior que torturas de outrem.

Te amo, saiba disso. E mesmo que apanhar, que morrer e apodrecer aqui, de ti nunca esquecerei.

Não encontro palavras para expressar condolências a ti, pra exprimir minhas condições e sentimentos.

Tentativas frustradas.
Já esta anoitecendo, quase nada vejo. Porem fique certa que escreverei outras vezes.

Se essa carta receber, tenha certeza que estou pensando em ti, e que estou bem.

De seu amor cativo, 'Denis'
(Para: Amélia)


domingo, 17 de junho de 2012

Morte Curiosa

Medo invicto, se manifesta em mim,
Lugares sombrios, despertam-me a curiosidade.

Noite de lua clara, brisa fresca, perfumes putrefatos.
Corpo dilacerado, sombra que se arrasta pela escuridão.

Arvores dançam, ao ritmo da brisa,
Rosas negras mortas, pétalas pelo chão,
Sangue em minhas mãos, rastro pelo chão.

Demônios alvos, sentem meu receio,
Debocham de meu medo.
Fantasmas dos mortos, suspensos no ar, diante meus olhos.

Convidam-me a conhecer, ver o outro lado.
O outro lado do véu.
Contam-me sobre a vida, a vida após a morte
Iludem-me com palavras, montam hologramas

Resisto como posso, nego cada convite.
Passos largos me levam longe daqui.
Mas a escuridão não deixa-me ir.
Cativa.

Tudo puxa-me de volta, todos querem-me do outro lado
Anseiam minha morte, desejam o meu fim
E tudo pelo medo, medo de ser feliz
Que deixei-me levar.
Vejo-te do outro lado.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Abandono


Tempo perdido, horas se foram.
Lagrimas escorrem, num rosto inexpressivo.
Flores aos pedaços, espalhadas no chão,
Já foram belas, já foram um buquê.

Noite fria, brisa cálida.
Invadem meu quarto, balançam as cortinas.
Sopram em minha ‘alma, gelam meu corpo.
Palavras não ditas, por pouco engolidas.
Silencio mortal, sátrico.

Olhos gritaram: Amo-te!
Num gesto expressivo, e se foi.
Deixando-me outra vez sozinha
Abandonando-me a própria sorte.

Meu coração dizia, o que minha mente negava,
Meus lábios cerravam o que não queria confessar
Não queria me entregar, não quero me machucar.
Mas já era tarde demais, tudo que relutei agora zombava de mim.

Mente e coração, razão e emoção.
Ambos gritavam, ambos brigavam.
Mas concordavam ao dizer,
Ele não voltaria.

Nádia

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Despedida


Velhos padrões, quanta inocência.
Velhos hábitos, quanta vergonha.
Feridas expostas, quanta dor.

Houve um tempo, onde mentiras e disfarces eram aceitos, seguiam invictos perante todos.
Houve um tempo onde mentiras eram verdades, onde poses eram tudo.

Mas esse tempo zarpou como um barco ao horizonte se despede lentamente.
Como as folhas no outono, mascaras estão caindo ininterrupta e rapidamente,
Meu mundo desmoronando.

Perturbando-me o sossego, vejo-me nu, diante de todos, diante de mim.
Inexplicáveis sensações atormentam-me, do medo a vergonha.
Meus fantasmas voltaram a me assombrar, lembrando-me de meus erros, de meu passado.

Cruel sentença!
Estou entregue a própria sorte, rendido pelas emoções e sentimentos.
Perdido em mim, vagando sem rumo, como num dia frio de inverno procurando abrigo, procurando minha essência.

Ah longa jornada!
Me despido de mim mesmo, de minhas poses e encenações, de minhas mentiras e mascaras. Estou nu.
Me despeço de meus hábitos, de meus vícios e crenças.
E me despeço de você, deixando-te para encontrar-me, partindo para meu destino, caminhando sem rumo.

Perdoe-me meu amor, pelas feridas desnecessárias, pelas dores por mim causadas.
Não me aguarde voltar, não me espere acordada, pois a quem tanto feri, só desejo o melhor, que toda sorte lhe acompanhe.

Adeus.


terça-feira, 12 de junho de 2012

O Tempo

Indiscerníveis sentimentos.
Preenchem meu coração,
Fazem eco em minha alma
Desnorteando minha mente.

Como dizer-te tudo que sinto,
quando discursos já não expressam?
Como descrever-te meus sentimentos por ti, quando não ha palavras dignas para proferi-las?

Podia dar-lhe as estrelas, para que veja luz semelhante a tua.
Podia dar-lhe o céu, para que veja o quão vasto é o lugar que ocupas em minha vida.
Podia dar-lhe sol e a lua, os astros e planetas, para que saiba que és única e incomparável.

Porém nem mesmo as mais belas flores e os mais belos jardins, seriam suficientes para exprimir tais condolências. 



Cartas para ti. 
Trazem as mais encantadoras poesias e os mais inarráveis textos.
As mais belas palavras, de grandes poetas.

Palavras ao vento.
Deixo para ti minha amada, na esperança de que toquem-lhe a alma, e aqueça o seu ser.
Em noites frias e solitárias, em dias tristes e chuvosos.
Que elas sejam para ti um consolo, um refugio.
Pois de todo o meu coração, eu as escrevi.

Ao vento e ao tempo, se perderam aos poucos.
Formosas e passageiras, tinta e letras.
Esperança tenho, de que não se esqueça de mim minha dama.

Até breve.
De seu fiel viajante. 

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Ninfa De Meus Sonhos.

Doce ilusão
Venda-me os olhos para que eu não veja quem tu és,
Cega-me a alma para acreditar em tuas mentiras.

Linda e fugaz
Atrai-me com teus olhos profundos,
Envenena-me com teus doces lábios,
Envolve-me em teu perfume.

Quem dera conhecer-te profundamente?
Quem dera tê-la completamente?
Perfeita e inocente, toca-me profundamente.

Indomável!
Livre e destemida, cruel e artiloza.
Por aonde vás, rouba corações, destrói vidas.

Afável e Atroz!
Reis e poderosos, sábios e profetas, nenhum foi capaz de resisti-la.
Colecionadora de paixões, verdugo de almas.

Em teus encantos, em teu charme, sou seu escravo eterno.
Construindo sonhos, alimentando esperanças, me manteve cativo.



A luz da lua, esgueira-se pelas sombras, astuta.
Ao som das arvores, deleita-se.
Brincando com a morte, ingênua.

Ah malévola megera!
Como a ninfa de meus sonhos, vêm todas as noites a me perturbar, a me tentar.

Sigo meus dias ansiando para ver-te e tocar-te novamente.
Ao pôr do sol, aguardo-te em meu quarto, arrastando meus grilhões, ansioso com a sua chegada.

Eterno e mortal incapaz de escapar.
Encantador e cruel, impossível de resistir.
Perdido em ti, sempre estarei.


Nádia e Andrei

domingo, 10 de junho de 2012

Fantasma de mim mesmo

Entre a vida e a morte. Lugar silencioso, perturbando-me os ouvidos.
Suave fragor intriga-me a alma, convida-me a segui-lo.
Dança macabra, sem ritmo, sem companhia, sozinho na escuridão, valsando a luz da lua.

Sombras chamam-me a atenção, desformes e medonhas, se estiram pelo chão.
A musica para, assim como minha dança, trazendo de volta o silencio.
Tão perturbador!
Incita-me a pensar, a adentrar em meu ser, a conhecer-me melhor.



Silêncio infeliz! 
Empurra-me para algo que tanto evitei encarar a realidade.
Sozinho outra vez, com meu coração entre os dedos, observo minha mente vaguear, entre cada pensamento, entre cada lembrança.

Doces e cruéis lembranças!
Despertam meus sentimentos, emoções aflorando, fazendo-me lembrar de minha vida, da minha morte.

Para onde ir? O que fazer?
Quando se esta entre vida e a morte?

Fantasmas me rodeiam, me assustam e apavoram. Trazem-me sensações terríveis.
Dentre eles, um singular me desperta curiosidade.

Fantasma de mim mesmo.
Tudo que já fui, e ansiei ser, agora vagando diante meus olhos.
Quando isto terá fim?!

A morte se aproxima, como flores murchas, cada pedaço de mim morre, meu corpo se decompõe letargicamente, enquanto assisto petrificado.

Minha alma renasce! Dentre os escombros de minha morte, renasce como a fênix dentre as cinzas.
Brilhante e pura imaculada e perfeita.

Criação divina.
Estende-me a mão, e assim eu a acompanho, na jornada pela vida eterna.

Adeus fantasmas.
Andrei