terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Distâncias Internas


Estive perto demais, me senti longe demais 
Tive medo de tentar, e medo de perder
O que fazer? 

Dentro de mim só o som do vazio
Perdi algo que nunca tive, sinto falta de quem nunca vi.

No escuro da minha mente, grito em desespero
Como o que não tive me machuca tanto?
Como tudo que sempre quis desistiu de mim?

Grito e esbravejo não ha quem culpar
A não ser a mim mesma.
Não ha como consertar tudo que nunca existiu.
Perdi tudo que sou.




Nádia Ramos

Imortal desassossego


Terra escura, noite fria.
Coração de pedra levo comigo, tão gelado quanto o vento do inverno que sinto.
Ódio estagnado, magoas em minhas entranhas, nada muda há séculos.
Um imortal, vivendo pesadamente arrastando meus pesares, minhas lembranças.
Mente agitada, com emoções revoltas, meu medo invicto.

Nada mais me faz sentido, tudo perdeu a graça.
A morte me é atraente, torturas me parecem brincadeiras,
E a eternidade um verdadeiro castigo. Meu crime?
Amar perdidamente e sonhar sem limites.

Sonhei com dias mais belos, buscava alegrias duradouras.
Amei imensamente. Desejava tê-la para mim e faze-la a mulher mais feliz do mundo!
Mas tudo me foi cruelmente roubado. Minhas esperanças despedaçadas.
Com dois tiros me roubaram o amor, em alguns segundos levaram os minha alma.

Sim, ela se foi. Tomada de mim, sem dó ou compaixão, apagando o futuro que tínhamos juntos.
Isso parece que foi há séculos atrás. Há tantos anos que mal pude aguentar. Há mais dias do que pude contar.
E desde então, estou fadado a viver para sempre, vazio e rancoroso, planejando a minha vingança.

Acusam-me de insensível, gélido. Porque não veem a minha dor, nem minhas tantas lagrimas ou o minhas feridas.
Após tantos anos, já não sou aquele de outrora. O tempo encarregou-se de mudar-me.
Dedicou-se a moldar-me impiedosamente, com os flagelos dos dias.
E hoje sou mais insipido do que jamais fora. Mais forte do que jamais pensei ser.
Meus vazios não serão jamais preenchidos, pois este sempre será o lugar dela. Aind a amo.
De um vampiro sombrio.
Andrei 

Nádia Ramos.

Imensidão Eterna

Minha Dama, a vida não lhe foi justa
As pessoas não lhe foram dóceis
Situações a fizeram sofrer, perdas lhe fizeram chorar

Tu és como pedra bruta que espera ser esculpida,
Como rosas ao tempo, que morreram, estão secas e negras,
Esperam algum cuidado, lamentam o tempo perdido.

Teus olhos contam historias sem fim,
Teus lábios cerram palavras não ditas.
O tempo mostra segredos que jamais serão revelados.

Até quando?
Vida sem vida,
Viver sobrevivendo,
Amar odiando;

Miro as estrelas, de sua luz vejo esperança
Observo a lua, serena e compassiva, dela tiro forças

Lembro-me ti, e descubro em mim o vazio.
Lugar que já te pertencera,
Amor que já lhe dediquei,
Sonho que já vivi;

Morte sem sentido,
Vida um abismo.
Horas e dias se passam,
Inundando meu vazio,
Vazio de ti, vazio de mim, vazio de nós
.

Identidade


Eu sou como me vê
Eu sou os pedaços que encontrar
Eu sou a forma que montar

Eu sou tudo que vê
Eu sou tudo aquilo que você nao vê
E sou tudo o que descobrir.

Ja sabe quem sou?



Nádia Ramos.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Pacto Suicida

Jason era comum aos olhos do mundo, mas muito estranho aos próprios olhos. Havia algo de errado com ele, algo... Quebrado. Pelo menos era isso que todos diziam. Desde gostos e jeitos, à personalidade e crenças, em tudo ele era avesso. Criticas, ofensas e agressão já lhe eram familiares... Rotina. Apesar de ter se habituado a tudo isso, a grande parte dele que foi forçada a se esconder, e manter-se longe da superfície, sufocada, ainda sofria, ainda sentia e ainda gritava. E assim ele passou muitos anos, até... Hoje.
Pela manhã, outro dia monótono começava, levantou-se sem animo, vestiu uma roupa escolhida aleatoriamente, e saiu para trabalhar. Pegou a mesma rota de sempre, encontrou com as mesmas pessoas, mas dessa vez uma dentre elas era singular, e observava Jason atentamente, enquanto fumava um charuto calmamente. Ele vestia um terno preto, gravata vermelha, e possuía um cajado prateado onde se apoiava. Seus olhos eram penetrantes e totalmente desprovidos de vida ou características humana, assim como seu corpo e movimentos. Ao sair do metro e subir a costumeira viela abandonada, ele o surpreendeu:
- Sabe, uma vida é mais do que algumas tentativas inúteis de ser feliz. - Disse o estranho encostado no muro, o fitando de modo assustador.
- E cuidar da sua vida vale mais o seu tempo do que me incomodar. - Respondeu Jason mal humorado.
- Sempre prezei a sinceridade, e por isso tenho algo a lhe ofertar...
- Não quero comprar nada, me deixe em paz!. - Interrompeu Jason recomeçando a caminhar.

- Lhe darei tudo que quiser, em troca de algo que você considera inexistente.
Jason parou de andar, e ainda de costas ponderou as opções, confuso.
- Estou ouvindo.
O estranho esboçou algo similar a um sorriso, e prosseguiu:
- Com apenas algumas palavras, você será o homem mais feliz do mundo.
Jason se virou e o fitou atentamente, levemente tentado:
- O que tenho que fazer?
- Se mate...
Jason não soube responder, e desconfiado, permaneceu em silêncio.
- Se assim fizer se tornara imortal e terá tudo que sempre quis.
Naquele momento, ele pensou na vida que tinha, em tudo que vivera, e tudo que sofreu e ainda sofria. A conclusão mais triste desses pensamentos, era que ele não tinha nada nem ninguém que o impedisse disso, nem algo que o segurasse de fazer besteiras... Nada. Ele era livre e solitário.
- Porque devo acreditar em você? - Jason indagou quase convencido que não recusaria a oferta independente da resposta.
- Porque sou sua melhor oferta.
- Quando e onde?
- Agora e naquele prédio. - O estranho apontou um edifício abandonado próximo dali.
Jason se virou e foi andando quase que mecanicamente. Ao se aproximar, olhou para cima, de onde pularia, uma silhueta familiar já estava lá o esperando. Jason subiu as escadas quase em transe, sem ao mesmo notar já estava no terraço sujo e lotado com entulho.
O estranho já estava a espera, de pé e esboçando sentimentos quase humanos, como alegria e excitação.
Jason por outro lado, estava absorto em tantos sentimentos, emoções e
Lembranças. Porém algo naquele estranho e naquela atmosfera o mantinha calmo, e sob controle toda agressividade e raiva que sempre carregava consigo.
Alguns passos e ele já estava na beirada. O silêncio daquela noite em particular era perturbador e barulhento. A quietude da rua abaixo e do prédio lhe davam a exata sensação de que estava em outra dimensão, uma dimensão sombria e avessa a tudo que ele conhecia.
- A um passo da liberdade... Não é ótimo? - O estranho comentou quase sorrindo.
Sarcasmo? Não importava, Jason estava decidido, pularia e viveria a eternidade longe daquela vida medíocre e vazia. Agora, esperançoso de que tudo mudaria... Ele pulou.




Seu corpo foi encontrado por um casal que passava pelo local na manhã seguinte, e avisou a policia.
Quanto a Jason? Fez um pacto suicida com um ser que se alimenta das sombras, dos medos, sofrimentos e dores... E assim, perdeu a vida.
Renata. 10 de março de 1985.


Nádia Ramos.