Noite escura com vento parado, somente grunhidos da floresta
eram audíveis a ela. Corria sem rumo, sem esperança. Seus olhos embaçados pelo
choro dificultavam a corrida, que vez ou outra tropeçava num galho ou raiz de
arvore. Ela não podia acreditar, tudo que sempre esperou lhe foi tirado, tudo
que sempre quis, despedaçado bem na sua frente. Seus pais a sentenciaram a uma
vida solitária, ou a um casamento forçado.
Os pais dele o sentenciaram a servir
o rei como cavaleiro, ou casar-se com uma princesa de um reino próximo. Mas
tudo que eles queriam era estar juntos. Burlavam as regras de seus pais sempre
que podiam, para passar algum tempo a sós, entre beijos e caricias. Há muito
planejavam confronta-los, e dizer-lhes toda verdade, e esse dia foi hoje. Ele e
ela os enfrentaram juntos, durante um jantar de negócios entre as famílias...
Não, jamais imaginariam a reação deles, mesmo que pensassem por anos, jamais
saberiam quais atitudes tomariam, mesmo que os sondasse suas mentes... Tudo foi
uma surpresa, e um grande desastre. Ele seria enforcado, e ela seria presa.
Pensamentos como esses traziam mais e mais lagrimas para seu
rosto, e fazia com que sentisse raiva de seus pais, raiva de sua vida, raiva de
seu destino. Como o salvaria? Como se salvaria? Para quem pediria ajuda? Não,
estava sozinha, abandonada a própria sorte. Mas ela não se entregaria sem
lutar, não se deixaria vencer pela situação, seu amor superava tudo, sua
vontade de estar com ele era maior que sua dor naquele momento.
Após minutos de corrida, chegou a uma clareira iluminada
somente pela lua. Precisava se esconder, precisava de um plano. Para onde teriam
levado ele? Ele teria escapado? Tudo que se lembrava era de sua voz ecoando no
saguão enquanto lutava pra se libertar dos guardas.
- Corra Briana! - Ele
gritou.
Ela saiu sem olhar para trás, e agora não sabia se seu amado
estava vivo ou morto. Ela deixou-se vencer pelo cansaço por um momento, se sentando
no chão da floresta, com a mão cobrindo o rosto ainda chorando. A borda de seu
vestido caiu levemente em volta dela, escondendo suas pernas e pés. Seus
cabelos negros e cacheados lhe caindo sobre o ombro e rosto, sua pele pálida,
estava rosada pela corrida. Seu vestido era preto e simples, preso no busto e
com duas mangas curtas, davam a ela um ar triste e melancólico, como uma ninfa
presa em um sonho.
Quando ela se sentiu vazia de ideias, cansada e triste
demais para se mexer, sentiu alguém se aproximando. Ouvia barulhos de folhas e
grama se mexendo estava próximo demais, tarde demais para correr, teria de
lutar por sua vida. Agarrou um galho ligeiramente pontudo, e o empunhou como se
fosse uma espada, que devia defende-la. O estranho chegou, sua silhueta era
visível, porém sua aparência ainda não, pois estava debaixo das arvores, onde
não havia a luz da lua.
- Briana?
-Dominik?
Sem perder tempo, ele correu até ela e a abraçou. Ela largou
o galho de arvore que empunhava e retribuiu o abraço fortemente. Ele estava
vivo! Estava bem! Ainda havia esperança para eles. Ela não pode conter a
alegria e o choro pela surpresa. Novamente se sentou ainda o abraçando, o
trazendo para perto... O tempo que estiveram longe parecia ter sido uma
eternidade, mas nada mais importava agora, pois estavam finalmente juntos, ali
na floresta, abraçados. Ele levantou seu rosto, de maneira que pudesse
contemplar sua beleza. Olhos cerrados e rosto molhado foi como ele a viu. Não... Não suportou ver tamanha tristeza em
sua amada, e certamente não a deixaria sozinha novamente... Nunca mais.
- Consegui fugir pouco depois que você saiu. Sabia que a
encontraria aqui, e vim o mais rápido que pude.
Ela abriu levemente os olhos para fita-lo. Tais olhos que já
sorriram sempre que o viam, agora estavam mareados e tristes. Ele prosseguiu.
- Vamos fugir para um condado pequeno, e lá ficaremos
juntos... Eu prometo. - Disse limpando pequenas lagrimas de seus olhos.
Ela não se cansava de olhar para ele. Seus cabelos escuros e
curtos lhe caiam sob os olhos e testa, seus olhos claros iluminavam o rosto,
seus lábios e sorriso eram simplesmente perfeitos demais para que ela deixasse
de notar. Seus ombros largos agora com uma camisa branca surrada, suja e
rasgada que mostrava parte de seu peito, sua calça e botas pretas igualmente
sujas, não faziam jus ao seu dono... Mas ela o amava de qualquer jeito.
Aninhada em seu peito, como se escondesse a dor ela
permaneceu, enquanto ele a abraçava como se fosse defende-la de um inimigo
invisível. Por um breve instante, ela olhou para cima e o beijou lenta e
demoradamente, o puxando para perto... Como se fosse registar isso em seu
coração, para que nunca se esquecesse de que entre eles havia amor.
Nádia Ramos.
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