O que é o amor? Qual sua extensão? Como
defini-lo? Palavras não conseguem exprimir tal sentimento, mas conseguem
esboçar os mais lindos poemas e poesias que narram emoções incríveis e únicas.
Somente quem já sentiu pode saber quão belo é sentir seu coração queimar por
dentro ao lembrar-se de seu amor, sua respiração se acelerar somente com a
menção da pessoa amada, sentir sua alma brilhando em sua intensidade máxima,
pois encontrou um pedacinho do amor divino, e finalmente se senti completo,
único e amado.
Heitor já sentira, e foi a melhor coisa
que lhe aconteceu em toda sua existência nessa terra de ninguém. Ela, Isabelle
fora quem o resgatara das trevas, quem o salvou de si mesmo, quem o amou quando
ninguém o amava, quem acreditou nele quando nem ele mesmo o fazia. Ela se
tornou sua luz, seu guia, uma estrela que o guiaria até o paraíso. Ele
desconhecia o amor, pois nunca o sentira, não conhecia a compaixão, pois nunca
demonstraram tal afeto a ele, e não conhecia o carinho, pois nunca tivera de
ninguém.
Abandonado pela mãe em um orfanato quando
era apenas um bebê, ele foi criado por pessoas desconhecidas, com outras
crianças que não lhe eram simpáticas. Nunca se sentira em ‘casa’ e nunca se sentiu
amado ou querido. Ele era só mais uma criança abandonada pelos pais
inconsequentes que não o quiseram sem ao menos saber quem ou como ele era.
Injusto sem duvida, e essa dor o consumia por dentro, o fazendo querer
manifestar seu pior lado para com todos, como se punisse o mundo pela sua vida
miserável. Ele não se considerava lindo então sempre fora tímido e recluso. Ele
era alto, pele branca, olhos e cabelos escuros como a noite, e roupas humildes,
doadas por famílias mais ricas para o orfanato.
Quando ele achou que estava perdido, que
era somente um demônio excluso da sociedade, ela o encontrou. Ela uma menina de
classe média, com cabelos loiros compridos até o meio das costas, pele branca,
lábios rosados e bem definidos e olhos azuis. Mas que com somente algumas
palavras cativou a atenção dele, com apenas um abraço amigo, lhe ganhou o
coração. Com ela, ele aprendeu o que é o amor, o que é a vida sem tanta
amargura, sem tanta dor. Conseguiu ver o sol pela primeira vez em anos, e notou
que no horizonte há muito mais do que o seu pequeno mundo lhe mostrava. Ele não
sabia bem o porquê ou como, mas sabia que devia sua vida a ela, e certamente
faria de tudo para vê-la feliz, para protegê-la de todo mal que há no mundo, e
para ama-la imensamente por toda vida.
Mas nada foi como ele imaginou.
Certo dia, Isabelle lhe visitara no
orfanato levando deliciosos lanches como de costume, e ficaram conversando por
horas, trocando afetos e caricias, até que ela anunciou sua partida, já estava
tarde, e seus pais ficariam preocupados, ela teria de voltar para casa. Ela se foi,
arrancando suspiros de Heitor que já com saudades, aguardava ansiosamente a
próxima visita. No dia seguinte, na hora combinada, ele a esperou no jardim,
mas ela não apareceu. Ele a esperou até o anoitecer, sem sinal de sua vinda.
Decepcionado ele retornou ao seu quarto confuso e preocupado - “O que
acontecera?” - Ele se perguntava. Decidiu então que lhe faria uma visita no dia
seguinte de manha.
Logo cedo enquanto todos ainda dormiam,
ele pegou sua mochila com apenas alguns pertences e a lançou nas costas,
começando sua longa caminhada até a casa de sua amada. Após vários minutos de
caminhada, chegou a humilde residência de Isabelle que apesar de sua aparência
peculiar não fora isso que lhe chamou a atenção, e sim policiais e algumas
pessoas abraçadas, sentidas, chorando pela perda de alguém. Logo o coração dele
se acelerou descompassado, e sua mente se agitou como um mar revolto, agoniado
com a possibilidade de que Isabelle estivesse morta.
Ao se aproximar, sua pior suspeita e medo
estava diante de seus olhos. Isabelle estava deitada no chão, com sangue em seu
vestido, cabelos e mãos... Estava morta. Sem pestanejar ele correu até ela, e
segurou seu corpo sem vida, chorando descontroladamente pela sua perda
inestimável. Os pais sem entender o puxaram para longe do corpo da filha, lhe
fazendo perguntas como:
-Como se atreve? – A mãe dela resmungou
entre lagrimas.
-Quem é você rapaz? – O pai dela indagou
furioso.
Mas ele não ligava para nenhum dos presentes,
sua dor o cegava de tudo. Ele a abraçou mais uma vez e lhe sussurrou no ouvido:
Eu vou te encontrar. Mesmo sabendo que ela não escutaria, ele naquele momento
fez uma promessa que cumpriria com seu próprio sangue. Limpou algumas lagrimas
que lhe embaçavam a visão e se foi, deixando a todos os presentes confusos.
Ele não podia crer, num dia estava feliz
e realizado, com sua amada viva e sorridente como sempre, e no outro lhe foi
tirada cruelmente. Ele andou mais rápido do que pretendia de volta para o
orfanato. Chegando lá, foi direto à biblioteca e começou a pesquisar alguns
livros como:
-
Vida após a morte
- Para onde vamos depois de morrer?
- Rituais para comunicação com os
espíritos
- Almas perdidas
- Homicidas e suicidas para onde vão?
Munido de tantos livros, passou toda
manha e grande parte da tarde estudando a morte, estudando um meio de
resgata-la desse cruel destino. Até que um livro lhe chamou a atenção “O astral
– lar dos espíritos”. Lá o autor contava um pouco sobre as colônias, os umbrais,
as habitações e o modo de vida similar ao da terra. Disse que é possível
encontrar parentes e amigos por lá. Apesar do grau de evolução de cada um ser
diferente, e alguns não permitir que eles se reconheçam, lembrem-se de suas
vidas ou se mostrem na forma como eram em vida, eles são as mesmas almas que um
dia habitaram um corpo. E assim passou o restante da noite lendo, e estudando
‘o astral’, porem adormeceu em cima dos livros.
O sol ainda não mostrava sinal de apontar
no horizonte quando ele acordou e notou que dormira na biblioteca. Lembrando-se
de tudo que lera e estudara já bastou para que ele tivesse um plano em mente.
Tudo que lera era o suficiente para se preparar para sua jornada atrás de
Isabelle. Ele a ajudaria naquele novo estado de espirito e ficaria com ela,
cuidaria para que não sofresse, pois não merecia.
Levantou-se e foi até a cozinha, onde
guardavam os produtos de limpeza, e procurando um pouco encontrou o que
procurava... Veneno para ratos. Pegou duas colheres e despejou o conteúdo do
veneno num copo, o encheu de leite e tomou. Sentou-se no chão esperando que o
veneno fizesse efeito, enquanto em sua mente só tinha espaço para Isabelle. Ela
o salvara uma vez, agora ele a salvaria. Não demorou muito para que sentisse
horríveis dores no peito, falta de ar e convulsões, após alguns minutos
agonizando... Ele morreu.
Estava tudo escuro, tudo ainda doía como
antes, seu nome era chamado diversas vezes por algumas vozes que ainda não
reconhecia.
-Acorde! Heitor o que você fez!?
Cada palavra dita criava um ecoo em sua mente...
Acorde, Acorde, Acorde!- Ele esforçou-se para abrir os olhos, e viu-se no chão
da cozinha ainda. – Será que o veneno não funcionou? – Ele se perguntava. Ao se
levantar cambaleante viu algo que não estava nos livros... Seu próprio corpo
ainda deitado, desacordado e sendo balançado pelas cozinheiras do orfanato.
Sim, deu certo, ele já estava do outro lado. Assustado por ver seu próprio
corpo, mas orgulhoso pelo andamento de seu plano, ele se afastou de lá,
tentando lembrar-se como chegar até Isabelle. Andando na rua fria, iluminada
por pequenos raios de sol e pouco movimentada por paramédicos, ambulância e
policia, tudo que ele conseguia pensar era nela. Seu sorriso, seu jeito, seus
abraços e caricias e de todo tempo que passaram juntos. Tais lembranças
injetaram uma dose de coragem nele, que disse baixinho – Já estou indo
Isabelle!
Ao pensar nela tão fortemente, ele se
sentiu ‘puxado’ por algo, que o levou a um lugar até então desconhecido. Tudo
era escuro, havia arvores sem folhas, secas e sem vida, poças d’agua pelo chão,
como se tivesse acabado de chover, o céu estava escuro como se anunciasse numa
tempestade sem fim, e mais a frente vultos caminhavam como zumbis. Alguns
balbuciavam frases sem sentido, outros gritavam para o nada, outros ainda
gemiam e choravam. Ele ainda não sabia, mas estava no umbral.
-Ela esta aqui?- Ele se perguntou.
Foi andando lentamente, procurando entre
todos que via o rosto dela, ou ao menos algum sinal. Enquanto procurava se
sentia cansado, como se lhe faltasse o ar, sentia por vezes dores no peito e
até sede, mas nada disso o faria parar, ele fizera uma promessa e cumpriria.
Passou varias horas que pareciam dias procurando por ela, lagrimas de saudades
rolavam em seu rosto, imagens de como ele a vira no chão, cheia de sangue, com
os olhos cerrados e corpo sem vida o partia no meio de tanta dor. – O que
acontecera com ela? Quem fizera tamanha crueldade?- Ele indagava inconformado.
Após dias procurando sem sucesso ele
cedeu ao cansaço e tristeza. Esse lugar parecia ser infinito! Por mais que
andasse nada parecia mudar, e pior ainda, sem sinal dela. Ele nunca fora um
rapaz religioso, nem ao menos acreditava totalmente que havia um Deus, mas
nesse momento, juntou toda fé que lhe restava, olhou para o céu e suplicou:
Deus! Ajude-me a encontra-la! Quero cuidar dela... Não quero ficar sozinho. Seu
pranto se tornou mais forte, enquanto ele socava o chão debaixo dele, com raiva
por tudo isso, com saudades e com a maior dor que jamais imaginou sentir, ele
ouviu:
-Precisa de ajuda meu irmão?
Essas palavras o assustaram, pois todos
lá pareciam ter perdido a lucidez para formar qualquer frase lógica para
iniciar uma conversa. Ao se levantar e fitar quem havia pronunciado aquela
frase se deparou com um rapaz jovem, talvez tão jovem quanto ele. Tinha cabelos
enrolados e curtos, negros, pele parda, olhos negros, e vestia calca e camisa
branca. Porém antes mesmo de Heitor questionar quem ele era, esse sorriu
amigavelmente e respondeu:
-Sou Moura. Vim das colônias ajudar os
irmãos aqui no umbral. Ouvi seu pranto. – Ele sorriu amigavelmente.
-Umbral? Sabe onde está Isabelle? – Ele
disparou.
-Não se preocupe com ela nesse momento,
cuidaremos de você primeiro. Venha. – E lhe estendeu a mão.
Heitor pouco desconfiado de tanta
gentiliza hesitou, porém realmente precisava de ajuda, e precisava procurar
Isabelle. Relutante ele pegou a mão de Moura, aceitando sua ajuda. Esse o
abraçou e voou por cima do umbral, fazendo o caminho de volta para as colônias.
Em poucos minutos eles chegaram a uma instalação peculiar, um prédio de tijolos
escuros, com uma porta pequena de madeira. Moura lhe apresentou outros dois
companheiros, João e Daniel que o acompanhariam a partir dali.
Eles adentraram o local, que tinha apenas
pequenas velas espalhadas por todo local, como se fosse uma espécie de caverna
ou câmera. Ao prosseguir por um estreito corredor João lhe indicou uma cama
simples, onde ele deveria descansar.
- Eu preciso encontrar Isabelle! Vocês a
conhecem? Por favor, me ajudem! – Ele disparou desesperado por encontrar sua
amada.
- Sim, ela chegou há poucos dias, esta se
recuperando. Assim que apresentar melhora, eu o levarei lá pessoalmente, não se
preocupe e descanse.
Muito relutante, mas realmente cansado,
ele se deitou e logo adormeceu. Sonhou com Isabelle naquele umbral, suja, cheia
de sangue, chorando e pedindo ajuda, sem que ninguém desse ouvidos a ela...
Acordou com os olhos cheios d’agua, quando notou que ela estava sentada próxima
a sua cama, o observando dormir.
-Isabelle?!
Ele se levantou rapidamente e a abraçou
forte, lagrimas e mais lagrimas escorriam de seu rosto emocionado, a saudade e
a dor se misturavam naquele momento, mas nada mais importava, ele finalmente a
encontrara.
-Heitor, como veio parar aqui? Você
também morreu? – Ela indagou confusa.
-Sim, vim por você. – Ele falou sorrindo.
-Você se matou... Por mim? – Ela
questionou impressionada.
- Eu não podia perdê-la... Te amo muito e
prometi que nunca te deixaria sozinha, e não vou deixar nunca mais.!
Ela emocionada, o abraçou fortemente, e
respondeu.
- E não importa para onde você vá, eu
sempre vou te achar. Te amo.
Nádia Ramos.
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