terça-feira, 11 de setembro de 2012

Amor Proibido


Noite escura com vento parado, somente grunhidos da floresta eram audíveis a ela. Corria sem rumo, sem esperança. Seus olhos embaçados pelo choro dificultavam a corrida, que vez ou outra tropeçava num galho ou raiz de arvore. Ela não podia acreditar, tudo que sempre esperou lhe foi tirado, tudo que sempre quis, despedaçado bem na sua frente. Seus pais a sentenciaram a uma vida solitária, ou a um casamento forçado. 

Os pais dele o sentenciaram a servir o rei como cavaleiro, ou casar-se com uma princesa de um reino próximo. Mas tudo que eles queriam era estar juntos. Burlavam as regras de seus pais sempre que podiam, para passar algum tempo a sós, entre beijos e caricias. Há muito planejavam confronta-los, e dizer-lhes toda verdade, e esse dia foi hoje. Ele e ela os enfrentaram juntos, durante um jantar de negócios entre as famílias... Não, jamais imaginariam a reação deles, mesmo que pensassem por anos, jamais saberiam quais atitudes tomariam, mesmo que os sondasse suas mentes... Tudo foi uma surpresa, e um grande desastre. Ele seria enforcado, e ela seria presa.

Pensamentos como esses traziam mais e mais lagrimas para seu rosto, e fazia com que sentisse raiva de seus pais, raiva de sua vida, raiva de seu destino. Como o salvaria? Como se salvaria? Para quem pediria ajuda? Não, estava sozinha, abandonada a própria sorte. Mas ela não se entregaria sem lutar, não se deixaria vencer pela situação, seu amor superava tudo, sua vontade de estar com ele era maior que sua dor naquele momento.

Após minutos de corrida, chegou a uma clareira iluminada somente pela lua. Precisava se esconder, precisava de um plano. Para onde teriam levado ele? Ele teria escapado? Tudo que se lembrava era de sua voz ecoando no saguão enquanto lutava pra se libertar dos guardas.

- Corra Briana!  - Ele gritou.

Ela saiu sem olhar para trás, e agora não sabia se seu amado estava vivo ou morto. Ela deixou-se vencer pelo cansaço por um momento, se sentando no chão da floresta, com a mão cobrindo o rosto ainda chorando. A borda de seu vestido caiu levemente em volta dela, escondendo suas pernas e pés. Seus cabelos negros e cacheados lhe caindo sobre o ombro e rosto, sua pele pálida, estava rosada pela corrida. Seu vestido era preto e simples, preso no busto e com duas mangas curtas, davam a ela um ar triste e melancólico, como uma ninfa presa em um sonho.

Quando ela se sentiu vazia de ideias, cansada e triste demais para se mexer, sentiu alguém se aproximando. Ouvia barulhos de folhas e grama se mexendo estava próximo demais, tarde demais para correr, teria de lutar por sua vida. Agarrou um galho ligeiramente pontudo, e o empunhou como se fosse uma espada, que devia defende-la. O estranho chegou, sua silhueta era visível, porém sua aparência ainda não, pois estava debaixo das arvores, onde não havia a luz da lua.

- Briana?

-Dominik?

Sem perder tempo, ele correu até ela e a abraçou. Ela largou o galho de arvore que empunhava e retribuiu o abraço fortemente. Ele estava vivo! Estava bem! Ainda havia esperança para eles. Ela não pode conter a alegria e o choro pela surpresa. Novamente se sentou ainda o abraçando, o trazendo para perto... O tempo que estiveram longe parecia ter sido uma eternidade, mas nada mais importava agora, pois estavam finalmente juntos, ali na floresta, abraçados. Ele levantou seu rosto, de maneira que pudesse contemplar sua beleza. Olhos cerrados e rosto molhado foi como ele a viu.  Não... Não suportou ver tamanha tristeza em sua amada, e certamente não a deixaria sozinha novamente... Nunca mais.

- Consegui fugir pouco depois que você saiu. Sabia que a encontraria aqui, e vim o mais rápido que pude.
Ela abriu levemente os olhos para fita-lo. Tais olhos que já sorriram sempre que o viam, agora estavam mareados e tristes. Ele prosseguiu.

- Vamos fugir para um condado pequeno, e lá ficaremos juntos... Eu prometo. - Disse limpando pequenas lagrimas de seus olhos.

Ela não se cansava de olhar para ele. Seus cabelos escuros e curtos lhe caiam sob os olhos e testa, seus olhos claros iluminavam o rosto, seus lábios e sorriso eram simplesmente perfeitos demais para que ela deixasse de notar. Seus ombros largos agora com uma camisa branca surrada, suja e rasgada que mostrava parte de seu peito, sua calça e botas pretas igualmente sujas, não faziam jus ao seu dono... Mas ela o amava de qualquer jeito.

Aninhada em seu peito, como se escondesse a dor ela permaneceu, enquanto ele a abraçava como se fosse defende-la de um inimigo invisível. Por um breve instante, ela olhou para cima e o beijou lenta e demoradamente, o puxando para perto... Como se fosse registar isso em seu coração, para que nunca se esquecesse de que entre eles havia amor. 
Nádia Ramos.

sábado, 25 de agosto de 2012

Dark Angel


A noite fria e silenciosa, aumentava a tensão e velocidade dos pensamentos dela. Ofegante, subindo as escadas mais rápido do que desejava, ela se convencia de que não havia alternativa, e que não voltaria atrás dessa vez. Sempre odiara a vida que tinha, mas também temia a morte. Que cruel! Presa entre dois estados da alma, por medos e frustrações.

A porta rangeu preguiçosamente quando ela a empurrou, revelando o terraço do prédio escuro e frio. Andando vagarosamente em direção à beirada, muitos pensamentos lhe assaltavam a paz que lhe restava. Pequenas lagrimas escorriam em seu rosto triste e cálido. Seus últimos minutos de vida seriam regados com lagrimas sentidas. Ninguém notaria a ausência dela, ninguém jamais saberia como foi sua vida, ou sua morte. Seus motivos ou razões. Sempre fora sozinha, por que mudaria agora?

Na beirada, fitava ao seu redor com desinteresse, com o olhar perdido. Luzes e mais luzes iluminavam a cidade, carros passavam apresados, pessoas rindo e sorrindo em grupos, andavam sem rumo. Será que eram felizes? Ela se perguntava. Nunca fora a favor das máscaras que a sociedade usava todos os dias, em todos os meios. Tudo soava tão... Falso. Como num filme ruim, onde todas as falas e gestos foram ensaiados metodicamente. Ela nunca fizera parte dessa sociedade, nunca se sentira parte de lugar nenhum. Como uma peça sobrando, ela era deixada de lado... Excluída.

Por um bom tempo, conseguira conviver com isso, simplesmente ignorando a indiferença dos demais para com ela. Mas o tempo foi desgastando sua força de vontade, e a ‘barreira’ que construirá em volta de si. A cada dia era uma tortura, a cada indiferença e ofensa, uma cicatriz. Via-se sozinha e isolada, frustrada e amargurada. Nem ao menos conseguia descansar todas as noites sem seus comprimidos... . Uma dependente, independente, que irônico. Somente em seus sonhos encontrava alivio, um abrigo. Um mundo só dela, onde era realizada e feliz. Mas tudo isso acabava com o alarme das 06h30min, a despertando para o pesadelo... Sua vida.

Mas tudo isso iria acabar naquela noite, pois diria adeus àquela sociedade hipócrita e cruel, diria adeus a todos que já a ofenderam, humilharam e fizeram mal. Daria adeus as feridas e cicatrizes, e as tantas lagrimas que já havia chorado. E por fim, daria adeus à vida, rumo ao mundo dos sonhos.

Com lagrimas nos olhos, subiu na beirada, respirando com dificuldade por causa do ar gélido de junho. Estava a um passo de acabar com tudo, a um passo para o fim da vida. Quando ouviu a porta ranger atrás dela. Quem seria? Alguém sabia que ela estava lá? Desceu com cuidado da beirada, e olhou para trás. Uma silhueta esguia vinha em sua direção, lentamente, com a cabeça levemente abaixada. As mãos nos bolsos, demonstrava calma e indiferença. Ela esperou petrificada que alguma luz o iluminasse, revelando a identidade do rapaz. Mas para sua surpresa esse parou ainda no escuro, aumentando ainda mais o medo dela.

- Quem é você? – Ela indagou receosa.

Ele não respondeu, somente levantou a cabeça para fita-la por um breve instante. Ela podia jurar que sentiu um sorriso nos lábios do desconhecido. O que ele fazia lá? Ele recomeçou sua caminhada vagarosa, até que finalmente alcançou as poucas luzes que iluminavam o terraço. Que sujeito singular! Ele era alto, pele pálida e uniforme. Cabelos louros claros e compridos, que batiam na altura da cintura. Algumas pequenas mechas lhe caiam sob o rosto, dando um ar misterioso à ele. Suas roupas escuras pareciam realçar ainda mais a cor de sua pele e cabelos, fazendo-os brilhar de maneira sobrenatural. Vestia um, sobretudo preto aberto, e uma camiseta justa e igualmente preta por baixo. Calças levemente justa ao corpo, contornando cada curva de suas pernas e uma bota preta. Seu corpo era forte e largo.

Ela estava curiosa, e já não sentia mais medo. Havia um magnetismo misterioso que a envolvia, fazendo-a ter vontade de estar perto dele, de abraça-lo, mas... Por quê? Nem o conhecia. Sem controle aparente de suas pernas, se aproximou dele, observando cada detalhe de seu corpo, de seu rosto. Quando ele a fitou diretamente, conseguiu ver seus olhos. Ah! Eles diziam muito, mas nada inteligível para ela. Olhos claros e translúcidos, quase violetas, tinham uma profundidade que ela jamais vira.

- Vai a algum lugar? – Ele perguntou repentinamente.

Suave voz era quase um sussurro em seus ouvidos, suave e terna, forte e delicada. Essas poucas palavras tiveram um efeito peculiar sob nela. A fizeram estremecer. Sem voz para responder, ela tentou retomar o controle de seu corpo e mente que agora parecia completamente imersos nele. À passos vacilantes, foi recuando, aumentando a distancia entre os dois. Ele abriu um pequeno sorriso enquanto fazia exatamente o oposto.

- Não... Se aproxime. – Ela ameaçou imóvel.

- Não vou lhe machucar Elena.

- Como sabe meu nome? – Seu coração se acelerou descompassado.

- Do mesmo modo que sei que pretende se jogar daqui de cima. - Ele sorriu despreocupado.

- Olha não sei quem você ou o que pretende, mas me deixe em paz! Meus planos não importam a você ou a ninguém!

Ele nada respondeu. Somente a observou por um momento, a estudando sutilmente, e pôs-se a contemplar o horizonte, e os barulhos da cidade. Ela não entendia suas atitudes, ou sua calma inabalável, mas não deixaria que ele interrompesse seus planos. Ela subiu novamente a beirada, e assim como ele fitava a cidade, e sua movimentação abaixo deles. Respirava lenta e demoradamente, como se aproveitasse os últimos minutos de oxigênio.

-Você não vai fazer isso... – Ele comentou pensativo, com o olhar perdido.

- Afinal quem é você?! – Questionou com irritação.

- Daniel.

- E como sabia sobre meus planos pra essa noite?

- Venho lhe observando Elena...

Ela o interrompeu indignada:

-Está me espionando?!

Ele se sentou na beirada onde ela estava de pé. E ainda com as mãos nos bolsos, suspirou baixinho.

- Por que vai pular? O que vai ganhar com isso?

- Liberdade.

- Fugir é liberdade?

- Ficar é tortura...

Tarde demais, sua voz estava embargada, e seu rosto cheio de lagrimas. Ele notando sua melancolia e tristeza profunda, levantou-se. E sem mais, a pegou pela cintura, trazendo-a para o chão.

-Você não vai querer fazer isso. – Ele sussurrou.

Ele a trouxe para perto quando a colocou no chão. Suas mãos ainda na cintura dela, a seguravam com firmeza, transmitindo certa segurança, algo que ela nunca sentira antes. Um misto de alegria e tristeza lhe invadiu. Ela virou o rosto para esconder as lagrimas, para esconder a dor. Ele a trouxe de volta, olhando-a nos olhos, segurando seu queixo. Enxugou lentamente algumas lagrimas com o dedo indicador, puxando-a pela cintura para perto dele, e beijou-lhe delicadamente. Ela deveria ter impedido, deveria ter parado. Mas se essa fosse sua ultima noite, se permitiria um ultimo beijo de um estranho.

Seu corpo era quente, e seus lábios delicados. Suas mãos a seguravam junto a ele, uma na cintura, e outra em seu rosto. Lagrimas e salivas faziam do beijo molhado e salgado. Mas há muito tempo ela não se sentia amada. Ele se afastou lentamente, apoiando a testa na testa dela, de maneira que a olhasse nos olhos, interrompendo o breve beijo, que parecia ter durado uma vida.

- Não pule. Fique comigo. – Ele pediu.

Novamente suas palavras mexeram com ela de um jeito estranho, como um choque elétrico que atravessava todo corpo, a deixando atordoada. Ela não entendia porque se sentia assim, ou porque ele a beijara, tampouco porque a pedia para ficar. Mas algo dentro dela sabia que tudo fazia sentido, sabia que havia esperado por esse momento a vida inteira, e que agora finalmente estava acontecendo. Sentia que já o conhecia, que já o amava, e que certamente renunciaria sua vida por ele. Afastando todos esses sentimentos e pensamentos aparentemente sem sentido, ela retomou o controle de sua mente, o suficiente para responde-lhe.

- Mas eu não o conheço, e você não me conhece. Porque pede para que eu fique?

- Elena... – E começou pensativo, soltando-a do abraço que os unia. – Eu já pulei por você. Abdiquei de tudo que possuía para ficar com você, não vou perdê-la agora.

Nada fazia sentido. Perguntas e mais perguntas lhe atormentavam. Do que ele estava falando? Mas antes que ela pudesse indagar, ele prosseguiu.

- Sei que não se lembra de nada, esse foi um preço que tivemos que pagar, mas acredite em mim... Não vou deixa-la novamente.

- Me lembrar do que? Do que está falando? Conte-me ou eu pulo. – Ameaçou soltando-se do abraço que os unia.

Ela já estava nervosa com a situação e tantos sentimentos brotando a esmo. Estava cansada, pois não dormira nada há varias noites. E estava se empenhando muito para controlar seu corpo e mente o que lhe era exaustivo.

- Vou lembrar-te, mas peço que mantenha a mente aberta.

Ela assentiu. E assim ele prosseguiu.

- Eu era um anjo, com a missão de ajudar os homens em suas dificuldades, mas me apaixonei. Para um anjo isso é proibido e pode ser fatal. Meu único erro foi amar uma mortal. Abdiquei de minha posição como anjo, para tornar-me humano, e assim finalmente ficar com ela. Mas a minha queda, trouxe consequências. Como castigo ela não se lembraria de mim. E para provar que o amor é mais forte, eu teria que reconquista-la, e se não conseguisse, viveria apenas um dia após ser rejeitado, e seria banido para o que vocês chamam de ‘inferno’. -  Ele pausou e suspirou. Parecia sentido. – Ela era você Elena.

Não. Só podia ser brincadeira. Parecia um filme ou historia de algum livro. Ela estava atordoada e confusa.

- Muito engraçado, você quase me convenceu. Quanto tempo levou pra bolar essa historia? Uma hora? Já chega me deixe em paz.

Apesar de seus lábios pronunciarem tais palavras, seu corpo e alma gritavam para que ela ficasse com ele, ficasse perto dele. Mas ela já havia sofrido por amor mais vezes do que poderia se lembrar, e certamente não sofreria no seu ultimo dia de vida. Recusava-se a se entregar tão fácil, ou alterar seus planos.

- Adeus Daniel. – Ela falou decidida, subindo na beirada novamente.
Seu coração bateu mais forte, toda sua vida acabaria ali. Uma súbita vertigem pela altura lhe atingiu, a desequilibrando... Ela caiu.

-NÃÃOOOOOOOO!!! – Ele gritou.

O vento passava por seu rosto cortando-lhe a pele, imagens do prédio, de Daniel e das pessoas logo abaixo passavam mais rápido que seus olhos podiam acompanhar. Ela sentia-se leve, sentia-se livre... Já não sentia mais medo. Foram os segundos mais longos de sua vida, que ela aproveitou como pode, registrando-os em sua mente.

Mas algo a segurou, toda queda cessou abruptamente, o vento parou, e o ar abandonou seus pulmões. A rapidez com que tudo parou, a deixou realmente aturdida. Sua vista estava embaçada demais para enxergar com clareza. Estava morta? Logo tudo se tornou tão distante, tão distorcido. Ouvia barulhos diversos sem identificar nenhum. Ouvia alguém lhe chamando, mas parecia tão distante. E então veio a escuridão. Seria o fim?

Ele a segurava firmemente, a apertava contra o peito como se quisesse fundir seus corpos. Pequenas lagrimas brotaram de seus olhos, que ele logo afastou de sua visão. A deitou cuidadosamente no chão, afastando pequenas mechas do cabelo negro sob o rosto. Rosto pálido e angelical. Olhos cerrados lhe diziam que era o fim, mas o coração dele dizia que ainda havia esperança. Seu corpo tão menor que o dele, estava agora sem vida, largado no chão. Lábios rosados e bem desenhados, que pronunciaram as ultimas palavras, agora estavam fechados e silenciosos. Mãos que já o tocaram, agora estavam frias e sem força.

- Acorde Elena... Por favor! – Ele sussurrava para si mesmo, enquanto a balançava inutilmente.

Sentou-se ao lado dela, com o rosto apoiado nas mãos. Este era o fim. O fim dela, o fim dele... O fim deles. Agora experimentava o amargo castigo que aceitara quando desistiu de sua posição por amor. Ele estava agora fadado a viver seu ultimo dia como humano, lamentando a perda de sua amada. E sentenciado a passar a eternidade preso, seguindo ordens que não lhe agradavam.

- Daniel? – Ela chamou baixinho, sem forças.

Num sobressalto, ele levantou-se. Segurou as mãos dela, e passou a outra mão sob o rosto dela ainda pálida, e de olhos fechados. Ela estava viva!

-Elena, você está bem?

Ela esforçou-se para sentar, forçando para que seus pulmões trabalhassem melhor, lhe trazendo mais ar. Apesar da visão turva, reconhecia Daniel e conhecia onde estavam... No terraço. Estava morta? Ou isso fazia parte do mundo de sonhos que tanto ansiou fazer parte?

- Você... Me salvou? – Ela balbuciou.

- E faria de novo. – Respondeu forçando um sorriso.

- Como? Eu... Pulei... – Ela questionava baixinho, tentando entender o que acontecera afinal.

Ele a abraçou forte, como se fizesse anos que não se viam, e a beijou como se não houvesse amanhã. Levantou-se e tirou o, sobretudo, e a camisa por baixo, revelando seus braços fortes e tórax definido. Mas não foi isso que a impressionou, e sim... Suas asas.
Eram negras e enormes, o dobro do tamanho dele, com penas grandes e lisas. Apesar de serem negras, emitiam um brilho acetinado e fosco, como uma aura em volta dele. Elas batiam lentamente, como se fossem levantar voo, e então descansaram em suas costas. Ela jamais vira algo assim, nem sequer havia imaginado.

- Então... É verdade?


- Eu jamais mentiria pra você.

Ela levantou-se cambaleante, atraída por aquelas assas. Curiosa sobre Daniel. Ela tocou as assas, eram gélidas e aveludadas. Tocou cada pena, passando a mãos por toda extensão. Assim como ele, suas assas também possuíam uma magnetismo incrível, ela podia passar horas admirando e tocando-as. Ele as abriu, deixando que ela explorasse, e a puxou para perto, segurando-a pela cintura.

Ela jamais se sentira assim, nunca havia se sentido querida ou amada. Nunca havia sentido segurança nos braços de alguém, tampouco sentira sentimentos tão fortes e desconhecidos, ou uma atração irresistível e viciante. Dizem que uma experiência quase morte, muda sua vida para sempre. Ela não acreditava nisso, até viver sua própria experiência. Até morrer e viver de novo, se jogar e ser salva. Sua vida seria melhor agora? Ela não sabia. Mas ao lado dele, o futuro parecia muito melhor que o passado. O amor dele, lhe alimentaria mesmo que passasse fome, e seu calor lhe esquentaria mesmo no inverno mais rigoroso. Ela parou de pensar e começou a sentir, parou de lutar e passou a aproveitar cada sensação que o contato com ele lhe trazia. Havia se entregado, de corpo e alma, mesmo antes de admitir para si mesma. Mas ela sabia, que se ela pulasse, ele a salvaria... Sempre.

Nádia Ramos

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Mundo Esquecido

Vaga solitária pela vida,
Renega e rejeita a todos.
Sem ímpeto ou escrúpulos,
Feri e destrói, para preservar sua segurança.

Pobre ninfa.
Cativa de seus medos, escrava do destino.
Padece em silêncio, chorando escondido.
Por debaixo de suas máscaras, tudo encobre.

Mundo escuro e gélido,
Tudo que vê a sua volta, sem principio ou fim, sem saída.
Injurias da morte, perdas da vida, de nada lhe servem,
Pois tudo a consome.

Amarga, atroz. Bela, sedutora.
Mundo perdido, ha muito esquecido.
Amor? Compaixão? Desconhece.
Há muito que não vê e muito que não sabe.
Arrastando grilhões, soluçando em silêncio.
Coração de pedra, olhos vidro.

Querida Rosa negra, não se desespere.
Pois vou encontra-la, vou ensina-la,
Na escuridão não ficará, sozinha não permanecerá.

Pois junto-me a ti, compartilho de sua dor.
E então, seremos dois andarilhos solitários, vagando pela vida.



Nádia

segunda-feira, 18 de junho de 2012

De Toda Sorte

Eis minha historia, minha lamuria.
Fui acusado erroneamente, por atos refugos que não cometi.
Obrigado a provar minha inocência, procurei com afinco por provas, trabalho vão.

Ameaçado e acusado, abandonei meu lar, minha família e minha amada. Encarcerado.

Em prantos fiquei, no silêncio, no escuro, sozinho e perdido.
Jurei a mim mesmo que não desanimaria, que tentaria fugir a cada momento, que a procuraria ate meu ultimo suspiro e a encontraria novamente.

Minha dama, não chores por mim, não sofras sozinha.
Meu coração não aguentaria saber que tais olhos lacrimejam por mim, que tal beleza foi ofuscada pela tristeza. Seria pior que torturas de outrem.

Te amo, saiba disso. E mesmo que apanhar, que morrer e apodrecer aqui, de ti nunca esquecerei.

Não encontro palavras para expressar condolências a ti, pra exprimir minhas condições e sentimentos.

Tentativas frustradas.
Já esta anoitecendo, quase nada vejo. Porem fique certa que escreverei outras vezes.

Se essa carta receber, tenha certeza que estou pensando em ti, e que estou bem.

De seu amor cativo, 'Denis'
(Para: Amélia)


domingo, 17 de junho de 2012

Morte Curiosa

Medo invicto, se manifesta em mim,
Lugares sombrios, despertam-me a curiosidade.

Noite de lua clara, brisa fresca, perfumes putrefatos.
Corpo dilacerado, sombra que se arrasta pela escuridão.

Arvores dançam, ao ritmo da brisa,
Rosas negras mortas, pétalas pelo chão,
Sangue em minhas mãos, rastro pelo chão.

Demônios alvos, sentem meu receio,
Debocham de meu medo.
Fantasmas dos mortos, suspensos no ar, diante meus olhos.

Convidam-me a conhecer, ver o outro lado.
O outro lado do véu.
Contam-me sobre a vida, a vida após a morte
Iludem-me com palavras, montam hologramas

Resisto como posso, nego cada convite.
Passos largos me levam longe daqui.
Mas a escuridão não deixa-me ir.
Cativa.

Tudo puxa-me de volta, todos querem-me do outro lado
Anseiam minha morte, desejam o meu fim
E tudo pelo medo, medo de ser feliz
Que deixei-me levar.
Vejo-te do outro lado.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Abandono


Tempo perdido, horas se foram.
Lagrimas escorrem, num rosto inexpressivo.
Flores aos pedaços, espalhadas no chão,
Já foram belas, já foram um buquê.

Noite fria, brisa cálida.
Invadem meu quarto, balançam as cortinas.
Sopram em minha ‘alma, gelam meu corpo.
Palavras não ditas, por pouco engolidas.
Silencio mortal, sátrico.

Olhos gritaram: Amo-te!
Num gesto expressivo, e se foi.
Deixando-me outra vez sozinha
Abandonando-me a própria sorte.

Meu coração dizia, o que minha mente negava,
Meus lábios cerravam o que não queria confessar
Não queria me entregar, não quero me machucar.
Mas já era tarde demais, tudo que relutei agora zombava de mim.

Mente e coração, razão e emoção.
Ambos gritavam, ambos brigavam.
Mas concordavam ao dizer,
Ele não voltaria.

Nádia

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Despedida


Velhos padrões, quanta inocência.
Velhos hábitos, quanta vergonha.
Feridas expostas, quanta dor.

Houve um tempo, onde mentiras e disfarces eram aceitos, seguiam invictos perante todos.
Houve um tempo onde mentiras eram verdades, onde poses eram tudo.

Mas esse tempo zarpou como um barco ao horizonte se despede lentamente.
Como as folhas no outono, mascaras estão caindo ininterrupta e rapidamente,
Meu mundo desmoronando.

Perturbando-me o sossego, vejo-me nu, diante de todos, diante de mim.
Inexplicáveis sensações atormentam-me, do medo a vergonha.
Meus fantasmas voltaram a me assombrar, lembrando-me de meus erros, de meu passado.

Cruel sentença!
Estou entregue a própria sorte, rendido pelas emoções e sentimentos.
Perdido em mim, vagando sem rumo, como num dia frio de inverno procurando abrigo, procurando minha essência.

Ah longa jornada!
Me despido de mim mesmo, de minhas poses e encenações, de minhas mentiras e mascaras. Estou nu.
Me despeço de meus hábitos, de meus vícios e crenças.
E me despeço de você, deixando-te para encontrar-me, partindo para meu destino, caminhando sem rumo.

Perdoe-me meu amor, pelas feridas desnecessárias, pelas dores por mim causadas.
Não me aguarde voltar, não me espere acordada, pois a quem tanto feri, só desejo o melhor, que toda sorte lhe acompanhe.

Adeus.


terça-feira, 12 de junho de 2012

O Tempo

Indiscerníveis sentimentos.
Preenchem meu coração,
Fazem eco em minha alma
Desnorteando minha mente.

Como dizer-te tudo que sinto,
quando discursos já não expressam?
Como descrever-te meus sentimentos por ti, quando não ha palavras dignas para proferi-las?

Podia dar-lhe as estrelas, para que veja luz semelhante a tua.
Podia dar-lhe o céu, para que veja o quão vasto é o lugar que ocupas em minha vida.
Podia dar-lhe sol e a lua, os astros e planetas, para que saiba que és única e incomparável.

Porém nem mesmo as mais belas flores e os mais belos jardins, seriam suficientes para exprimir tais condolências. 



Cartas para ti. 
Trazem as mais encantadoras poesias e os mais inarráveis textos.
As mais belas palavras, de grandes poetas.

Palavras ao vento.
Deixo para ti minha amada, na esperança de que toquem-lhe a alma, e aqueça o seu ser.
Em noites frias e solitárias, em dias tristes e chuvosos.
Que elas sejam para ti um consolo, um refugio.
Pois de todo o meu coração, eu as escrevi.

Ao vento e ao tempo, se perderam aos poucos.
Formosas e passageiras, tinta e letras.
Esperança tenho, de que não se esqueça de mim minha dama.

Até breve.
De seu fiel viajante. 

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Ninfa De Meus Sonhos.

Doce ilusão
Venda-me os olhos para que eu não veja quem tu és,
Cega-me a alma para acreditar em tuas mentiras.

Linda e fugaz
Atrai-me com teus olhos profundos,
Envenena-me com teus doces lábios,
Envolve-me em teu perfume.

Quem dera conhecer-te profundamente?
Quem dera tê-la completamente?
Perfeita e inocente, toca-me profundamente.

Indomável!
Livre e destemida, cruel e artiloza.
Por aonde vás, rouba corações, destrói vidas.

Afável e Atroz!
Reis e poderosos, sábios e profetas, nenhum foi capaz de resisti-la.
Colecionadora de paixões, verdugo de almas.

Em teus encantos, em teu charme, sou seu escravo eterno.
Construindo sonhos, alimentando esperanças, me manteve cativo.



A luz da lua, esgueira-se pelas sombras, astuta.
Ao som das arvores, deleita-se.
Brincando com a morte, ingênua.

Ah malévola megera!
Como a ninfa de meus sonhos, vêm todas as noites a me perturbar, a me tentar.

Sigo meus dias ansiando para ver-te e tocar-te novamente.
Ao pôr do sol, aguardo-te em meu quarto, arrastando meus grilhões, ansioso com a sua chegada.

Eterno e mortal incapaz de escapar.
Encantador e cruel, impossível de resistir.
Perdido em ti, sempre estarei.


Nádia e Andrei

domingo, 10 de junho de 2012

Fantasma de mim mesmo

Entre a vida e a morte. Lugar silencioso, perturbando-me os ouvidos.
Suave fragor intriga-me a alma, convida-me a segui-lo.
Dança macabra, sem ritmo, sem companhia, sozinho na escuridão, valsando a luz da lua.

Sombras chamam-me a atenção, desformes e medonhas, se estiram pelo chão.
A musica para, assim como minha dança, trazendo de volta o silencio.
Tão perturbador!
Incita-me a pensar, a adentrar em meu ser, a conhecer-me melhor.



Silêncio infeliz! 
Empurra-me para algo que tanto evitei encarar a realidade.
Sozinho outra vez, com meu coração entre os dedos, observo minha mente vaguear, entre cada pensamento, entre cada lembrança.

Doces e cruéis lembranças!
Despertam meus sentimentos, emoções aflorando, fazendo-me lembrar de minha vida, da minha morte.

Para onde ir? O que fazer?
Quando se esta entre vida e a morte?

Fantasmas me rodeiam, me assustam e apavoram. Trazem-me sensações terríveis.
Dentre eles, um singular me desperta curiosidade.

Fantasma de mim mesmo.
Tudo que já fui, e ansiei ser, agora vagando diante meus olhos.
Quando isto terá fim?!

A morte se aproxima, como flores murchas, cada pedaço de mim morre, meu corpo se decompõe letargicamente, enquanto assisto petrificado.

Minha alma renasce! Dentre os escombros de minha morte, renasce como a fênix dentre as cinzas.
Brilhante e pura imaculada e perfeita.

Criação divina.
Estende-me a mão, e assim eu a acompanho, na jornada pela vida eterna.

Adeus fantasmas.
Andrei

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Minha Viagem.




Add caption
Onde estou?
Território desconhecido. Terra de minha alma.
Vagando em mim, descobrirei meus segredos, minhas sombras e fraquezas... Meus demônios.

Riem de mim, zombam de minha fé, expõem minhas falhas... Sinto-me pequenino e fraco.
Sinto-me pequeno em mim, uma criança perdida e desorientada, curiosa e ignorante.
Ah! Há tanto para saber, tanto para ver.

Terra de mim mesmo.
Embarco em um navio, em direção ao horizonte. Zarpo sentido, pois tudo que jurava conhecer, não passara de ilusões.

Partirei, deixando tudo que conhecia em direção ao desconhecido.
Destino? Sem norte, sem rumo.

Ei de me encontrar, de me levantar mais forte.
Exorcizarei meus demônios, destruindo todos que zombaram de mim, que riram de minha fé e esperança.

Mas sou grato, pois muito aprendi, muito vivi e experimentei.
Amanhã certamente possuirei vivências muito melhores que as de hoje, e como um filósofo, encontrarei as respostas.

Serei um poeta, escrevendo em minha existência, poemas tristes e melancólicos.
Porém um tempo vira, onde me apaixonarei perdidamente, amarei grandemente... Amor de verdade, amor pela vida.

E então, tudo fará sentido!
E finalmente verei a luz do sol, brilhando sob mim, esquentando meu ser, iluminando meu caminho.

Por hora, me despeço de minha terra, de meus amigos e familiares, direi: Adeus meus queridos, partirei em busca de uma peça para preencher este vazio enorme que me consome.

Ate breve.
Ass.: Um pequenino viajante.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Conexão com o Divino


Uma manha de sol fraco num final de inverno estou em uma montanha e procuro algo enquanto  aprecio tudo que vejo. Próximo a um rio me deparo com um urso pardo, esse se levanta e começa a gruir, como se fosse atacar, não me mexo, senti que era apenas territorial, ele logo se acalma e no rio próximo pesca um peixe e senta para comer. Eu o observo por alguns instantes. Olho a minha volta ainda a procura de algo, ao meu lado direito ha um lobo de cor cinza e branco, ele era diferente dos que já vi, esse tinha consciência e senti que me guiaria e me levaria ao que eu procurava, intuitivamente eu o segui. Precisava chegar à outra margem do rio, era do outro lado que continuariam a caminhar, ele me olhou e sem dizer nada me instruiu a pensar numa ponte para aquele rio. 


Assim eu fiz e logo se fez verdade, ele seguiu na frente me mostrando q era real e seguro atravessar, eu o segui. Do outro lado do rio ele percebendo minha incredulidade novamente me instruiu, dessa vez era para imaginar que a ponte não existia como originalmente eu havia visto. Então assim eu fiz novamente e se fez verdade, não havia mais ponte, ele me disse sem palavras que, a mente é poderosa, e que tudo é energia, até os pensamentos são energias, sendo assim poderia criar e destruir somente com a força do pensamento. Compreendi então e continuei a segui-lo. Seguimos uma trilha que subia pelos lados da montanha para chegar ao destino. Chegando ao topo, tudo era incrível, a vista era esplendida! Um sol lindo e quente a minha frente, me aquecia naquele dia gelado, abaixo arvores de variadas cores e formas, e um rio que passeava entre elas. O ar fresco e puro, cheio de vida simplesmente incrível! Sentei-me na grama, ele se sentou ao meu lado esquerdo. Enquanto contemplava o lugar de inigualável beleza, ao meu lado direito vi uma águia que posou numa pedra próxima a mim. Essa assim como o lobo tinha consciência e era sabia. Logo ouvi sua voz em minha mente, ela dizia:


-Lindo não é?  Muitos de vocês buscam a Deus, e alegam não encontrar, mas lhe digo que Ele esta mais perto do que vocês imaginam, vou lhe provar.


-Sinta o ar, respire profundamente - e assim eu fiz ,era único, como nunca havia sentido antes -Sentiu? – perguntou ele.


-Esse ar não é tão somente necessário para o seu corpo físico, mas é seu contato constante com Ele. Agora volte sua atenção para aquela arvore - apontando uma ao meu lado direito-sinta a energia dela, a vida que pulsa sutilmente - e assim eu fiz novamente, a sentia pura, serena, amigável e irradiava amor, como se fosse uma mãezona.


-Sentiu?-perguntou ele - ela é uma criação Dele, sendo assim é uma parte Dele, uma parte única, singular em sua beleza. É um presente pra você, para todos nós.


- Sinta agora o solo, a terra debaixo de você, ela não é somente um monte de terra, é também uma criação Dele, e vive, assim como um coração humano ela pulsa, sinta. - eu coloquei minhas mãos na terra e fechei os olhos e senti! Realmente havia energia, era sutil, mas emanava constantemente, pulsava mais adentro essa energia, essa vida.


-Sentiu?- perguntou ele novamente, fazendo uma breve pausa.


-A terra é generosa, ela esta sempre disposta a dividir, a doar o que tem de melhor, se você plantar, colherá, se você cuidar grata ela será. Ela não se importa em dividir seu "corpo" com todos os seres vivos –ele fez uma pausa - me veio à mente que os humanos dão algo e logo esperam e pedem algo em troca. 


Ele consentiu como se lesse minha mente e continuou:


- Então tudo a sua volta é criação Dele, você é criação Dele.


-Volte sua atenção agora para o seu corpo, sinta seu coração bater ritmado, seu sangue fluir por todo corpo, o ar entrando e saindo alimentando a vida em você, a sua consciência livre...  -Nunca havia percebido ou reparado em tamanha grandeza, como tudo é tão perfeito, uma verdadeira maquina de carne e osso. Como se me desse um tempo para pensar, continuou:


-Essa criação não pede muito para viver, somente ar e alimentos regularmente. Seguindo o que disse anteriormente, você é criação Dele, logo você é uma parte Dele. Sinta o amor em tudo que você sentiu, no ar, na arvore, no solo e em seu corpo, tudo em harmonia e criado com muito amor pensando em você, em nós. Não é preciso muito para busca-lo, apenas esteja consciente que Ele habita em tudo e em todos, Ele em sua sabedoria infinita plantou o bem e o mal em tudo, a dualidade é o equilíbrio. Lembre-se, Ele esta em você, Ele é você. Ele aguarda pacientemente a gratidão de tudo que ele criou, e que com um coração puro Ele possa abençoa-la, ajudar e continuar a presentear toda criação com o que há de melhor... – Novamente fez uma pausa, como se esperasse eu refletir e sentir cada palavra na sua essência.


 Continuei a observar a paisagem linda e sentir todo amor e energia a minha volta. Uma coruja marrom posou ao lado da águia, assim como os outros tinha tanta consciência quanto eu. Ela só observava, como se aprendesse junto comigo. Após algum tempo contemplando e sentindo de maneira profunda tudo o que me rodeava, me conectando a Ele novamente e a mim mesma, a águia retomou a palavra.


-Vocês dizem que sabem o que é o amor, mas como podem afirmar com essa certeza que sabem ou sentem o amor, quando muitos não conhecem a Ele verdadeiramente?


-O amor puro e sincero, é verdadeiro e cristalino, existe em tudo e em todos. Olhe além das aparências, atentamente e comece a sentir com a alma tudo o que lhe digo, essa é mais uma oportunidade de se reconectar a Ele. - eu estava em êxtase espiritual e mental, quanta sabedoria, quantas verdades que me passavam desapercebidas.


-Despegue agora dos pensamentos e sentimentos formandos, de tudo que o homem lhe ensinou ate hoje. O mesmo homem que julga e condena, mas preza a justiça, o homem que cria e destrói, mas prega a preservação, o homem que ama seletamente e não o tudo, o homem que determina a felicidade pelo quanto possui e não pelo que é. O homem que infelizmente se perdeu e se desconectou Dele pouco após de nascer. Foi-lhe colocado um véu para que obedecesse a uma sociedade organizada que dita regras e leis, que nem sempre beneficiam a todos igualmente - fez uma pausa percebendo que constatei esses fatos, percebendo que agora havia uma vontade real em mim de tirar esse véu que a muito me cegava. Ele continuou:


Add caption
-O ser humano separa e divide tudo, criando uma falsa ordem, mas é errônea essa divisão, pois tudo é parte de um todo, o ato de dividir é contrario ao amor, inibe a compreensão do divino, perpetua ainda mais o véu sob os olhos da alma. Não divida, some! Mais que isso, ajunte e veja o todo como originalmente foi criado, ame o todo igualmente, não discrimine. Perceba o sopro que Ele deu aos seus ossos e carne, criando assim a sua vida, lhe presenteando com essa oportunidade. Ele em sua infinita sabedoria criou tudo perfeitamente interligado, como uma maquina de roldanas que se fundem e giram juntas, tudo se completa. Sinta a partir de agora com a sua alma, com o seu ser, e não veja mais com os olhos físicos, mas sim com os da alma, se despida das verdades absolutas que lhe aprisionam, de preconceitos e conceitos formandos que dividem multidões, se tornando assim pura novamente, com o coração limpo e livre para Vê-lo, para sentir seu amor e bondade infinita e constante que pulsa no todo. Se reconecte a agora a Ele. Nessa jornada de volta, não tema o novo, o desconhecido, não tema os obstáculos, seja eles quais forem Não há preço estar com Ele para toda eternidade e senti-lo de maneira profunda e real. Reconectando a Ele, você encontrara a sua essência, você transmutara muitos sentimentos e pensamentos que tem em ti, passara a ver diferente a sentir diferença, amara a todos sem descriminar ou julgar, sem se descriminar ou julgar, se amara verdadeiramente.


 Outra pausa e eu estava maravilhada com tamanha sabedoria e discernimento. Tudo parecia tão mais simples agora, porque complicamos? Sentia-me livre, e feliz como uma criança novamente, como há muito tempo não me sentia. Sentia tudo de maneira intensa e constante, tudo pulsava ao meu redor em mim. Logo percebi que eu já não era tão somente um corpo, uma parte separada do todo. Que nesse momento não tinha mais corpo que me separava de tudo, eu era o todo, Ele estava lá, Ele estava em mim e eu Nele. - ele me observava e como se estivesse lendo meus pensamentos acrescentou:


-Isso é aprendizado para a alma, para uma vida! Aplique profundamente ao seu ser e na sua vida e espalhe a verdade Dele, deixe que todos O conheçam a partir de você, seja a semente para um mundo melhor, plante e colhera. Assim teremos todos e tudo reconectados, caminhando juntos a eternidade – Continuei a refletir sobre tudo que havia visto, sentido e ouvido. Tudo me parecia tão igual e tão diferente, prometi a mim mesma que não olharia a vida da mesma maneira novamente.

Nádia Ramos.