sábado, 8 de fevereiro de 2014

Pacto Suicida

Jason era comum aos olhos do mundo, mas muito estranho aos próprios olhos. Havia algo de errado com ele, algo... Quebrado. Pelo menos era isso que todos diziam. Desde gostos e jeitos, à personalidade e crenças, em tudo ele era avesso. Criticas, ofensas e agressão já lhe eram familiares... Rotina. Apesar de ter se habituado a tudo isso, a grande parte dele que foi forçada a se esconder, e manter-se longe da superfície, sufocada, ainda sofria, ainda sentia e ainda gritava. E assim ele passou muitos anos, até... Hoje.
Pela manhã, outro dia monótono começava, levantou-se sem animo, vestiu uma roupa escolhida aleatoriamente, e saiu para trabalhar. Pegou a mesma rota de sempre, encontrou com as mesmas pessoas, mas dessa vez uma dentre elas era singular, e observava Jason atentamente, enquanto fumava um charuto calmamente. Ele vestia um terno preto, gravata vermelha, e possuía um cajado prateado onde se apoiava. Seus olhos eram penetrantes e totalmente desprovidos de vida ou características humana, assim como seu corpo e movimentos. Ao sair do metro e subir a costumeira viela abandonada, ele o surpreendeu:
- Sabe, uma vida é mais do que algumas tentativas inúteis de ser feliz. - Disse o estranho encostado no muro, o fitando de modo assustador.
- E cuidar da sua vida vale mais o seu tempo do que me incomodar. - Respondeu Jason mal humorado.
- Sempre prezei a sinceridade, e por isso tenho algo a lhe ofertar...
- Não quero comprar nada, me deixe em paz!. - Interrompeu Jason recomeçando a caminhar.

- Lhe darei tudo que quiser, em troca de algo que você considera inexistente.
Jason parou de andar, e ainda de costas ponderou as opções, confuso.
- Estou ouvindo.
O estranho esboçou algo similar a um sorriso, e prosseguiu:
- Com apenas algumas palavras, você será o homem mais feliz do mundo.
Jason se virou e o fitou atentamente, levemente tentado:
- O que tenho que fazer?
- Se mate...
Jason não soube responder, e desconfiado, permaneceu em silêncio.
- Se assim fizer se tornara imortal e terá tudo que sempre quis.
Naquele momento, ele pensou na vida que tinha, em tudo que vivera, e tudo que sofreu e ainda sofria. A conclusão mais triste desses pensamentos, era que ele não tinha nada nem ninguém que o impedisse disso, nem algo que o segurasse de fazer besteiras... Nada. Ele era livre e solitário.
- Porque devo acreditar em você? - Jason indagou quase convencido que não recusaria a oferta independente da resposta.
- Porque sou sua melhor oferta.
- Quando e onde?
- Agora e naquele prédio. - O estranho apontou um edifício abandonado próximo dali.
Jason se virou e foi andando quase que mecanicamente. Ao se aproximar, olhou para cima, de onde pularia, uma silhueta familiar já estava lá o esperando. Jason subiu as escadas quase em transe, sem ao mesmo notar já estava no terraço sujo e lotado com entulho.
O estranho já estava a espera, de pé e esboçando sentimentos quase humanos, como alegria e excitação.
Jason por outro lado, estava absorto em tantos sentimentos, emoções e
Lembranças. Porém algo naquele estranho e naquela atmosfera o mantinha calmo, e sob controle toda agressividade e raiva que sempre carregava consigo.
Alguns passos e ele já estava na beirada. O silêncio daquela noite em particular era perturbador e barulhento. A quietude da rua abaixo e do prédio lhe davam a exata sensação de que estava em outra dimensão, uma dimensão sombria e avessa a tudo que ele conhecia.
- A um passo da liberdade... Não é ótimo? - O estranho comentou quase sorrindo.
Sarcasmo? Não importava, Jason estava decidido, pularia e viveria a eternidade longe daquela vida medíocre e vazia. Agora, esperançoso de que tudo mudaria... Ele pulou.




Seu corpo foi encontrado por um casal que passava pelo local na manhã seguinte, e avisou a policia.
Quanto a Jason? Fez um pacto suicida com um ser que se alimenta das sombras, dos medos, sofrimentos e dores... E assim, perdeu a vida.
Renata. 10 de março de 1985.


Nádia Ramos.

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