Pela manhã, outro dia monótono começava, levantou-se sem animo, vestiu uma roupa escolhida aleatoriamente, e saiu para trabalhar. Pegou a mesma rota de sempre, encontrou com as mesmas pessoas, mas dessa vez uma dentre elas era singular, e observava Jason atentamente, enquanto fumava um charuto calmamente. Ele vestia um terno preto, gravata vermelha, e possuía um cajado prateado onde se apoiava. Seus olhos eram penetrantes e totalmente desprovidos de vida ou características humana, assim como seu corpo e movimentos. Ao sair do metro e subir a costumeira viela abandonada, ele o surpreendeu:
- Sabe, uma vida é mais do que algumas tentativas inúteis de ser feliz. - Disse o estranho encostado no muro, o fitando de modo assustador.
- E cuidar da sua vida vale mais o seu tempo do que me incomodar. - Respondeu Jason mal humorado.
- Sempre prezei a sinceridade, e por isso tenho algo a lhe ofertar...
- Não quero comprar nada, me deixe em paz!. - Interrompeu Jason recomeçando a caminhar.
- Lhe darei tudo que quiser, em troca de algo que você considera inexistente.
Jason parou de andar, e ainda de costas ponderou as opções, confuso.
- Estou ouvindo.
O estranho esboçou algo similar a um sorriso, e prosseguiu:
- Com apenas algumas palavras, você será o homem mais feliz do mundo.
Jason se virou e o fitou atentamente, levemente tentado:
- O que tenho que fazer?
- Se mate...
Jason não soube responder, e desconfiado, permaneceu em silêncio.
- Se assim fizer se tornara imortal e terá tudo que sempre quis.
Naquele momento, ele pensou na vida que tinha, em tudo que vivera, e tudo que sofreu e ainda sofria. A conclusão mais triste desses pensamentos, era que ele não tinha nada nem ninguém que o impedisse disso, nem algo que o segurasse de fazer besteiras... Nada. Ele era livre e solitário.
- Porque devo acreditar em você? - Jason indagou quase convencido que não recusaria a oferta independente da resposta.
- Porque sou sua melhor oferta.
- Quando e onde?
- Agora e naquele prédio. - O estranho apontou um edifício abandonado próximo dali.
Jason se virou e foi andando quase que mecanicamente. Ao se aproximar, olhou para cima, de onde pularia, uma silhueta familiar já estava lá o esperando. Jason subiu as escadas quase em transe, sem ao mesmo notar já estava no terraço sujo e lotado com entulho.
O estranho já estava a espera, de pé e esboçando sentimentos quase humanos, como alegria e excitação.
Jason por outro lado, estava absorto em tantos sentimentos, emoções e
Lembranças. Porém algo naquele estranho e naquela atmosfera o mantinha calmo, e sob controle toda agressividade e raiva que sempre carregava consigo.
Alguns passos e ele já estava na beirada. O silêncio daquela noite em particular era perturbador e barulhento. A quietude da rua abaixo e do prédio lhe davam a exata sensação de que estava em outra dimensão, uma dimensão sombria e avessa a tudo que ele conhecia.
- A um passo da liberdade... Não é ótimo? - O estranho comentou quase sorrindo.
Sarcasmo? Não importava, Jason estava decidido, pularia e viveria a eternidade longe daquela vida medíocre e vazia. Agora, esperançoso de que tudo mudaria... Ele pulou.
Seu corpo foi encontrado por um casal que passava pelo local na manhã seguinte, e avisou a policia.
Quanto a Jason? Fez um pacto suicida com um ser que se alimenta das sombras, dos medos, sofrimentos e dores... E assim, perdeu a vida.
Renata. 10 de março de 1985.
Nádia Ramos.
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