segunda-feira, 4 de março de 2013

Suicídio por amor


O que é o amor? Qual sua extensão? Como defini-lo? Palavras não conseguem exprimir tal sentimento, mas conseguem esboçar os mais lindos poemas e poesias que narram emoções incríveis e únicas. Somente quem já sentiu pode saber quão belo é sentir seu coração queimar por dentro ao lembrar-se de seu amor, sua respiração se acelerar somente com a menção da pessoa amada, sentir sua alma brilhando em sua intensidade máxima, pois encontrou um pedacinho do amor divino, e finalmente se senti completo, único e amado.
Heitor já sentira, e foi a melhor coisa que lhe aconteceu em toda sua existência nessa terra de ninguém. Ela, Isabelle fora quem o resgatara das trevas, quem o salvou de si mesmo, quem o amou quando ninguém o amava, quem acreditou nele quando nem ele mesmo o fazia. Ela se tornou sua luz, seu guia, uma estrela que o guiaria até o paraíso. Ele desconhecia o amor, pois nunca o sentira, não conhecia a compaixão, pois nunca demonstraram tal afeto a ele, e não conhecia o carinho, pois nunca tivera de ninguém.
Abandonado pela mãe em um orfanato quando era apenas um bebê, ele foi criado por pessoas desconhecidas, com outras crianças que não lhe eram simpáticas. Nunca se sentira em ‘casa’ e nunca se sentiu amado ou querido. Ele era só mais uma criança abandonada pelos pais inconsequentes que não o quiseram sem ao menos saber quem ou como ele era. Injusto sem duvida, e essa dor o consumia por dentro, o fazendo querer manifestar seu pior lado para com todos, como se punisse o mundo pela sua vida miserável. Ele não se considerava lindo então sempre fora tímido e recluso. Ele era alto, pele branca, olhos e cabelos escuros como a noite, e roupas humildes, doadas por famílias mais ricas para o orfanato.
Quando ele achou que estava perdido, que era somente um demônio excluso da sociedade, ela o encontrou. Ela uma menina de classe média, com cabelos loiros compridos até o meio das costas, pele branca, lábios rosados e bem definidos e olhos azuis. Mas que com somente algumas palavras cativou a atenção dele, com apenas um abraço amigo, lhe ganhou o coração. Com ela, ele aprendeu o que é o amor, o que é a vida sem tanta amargura, sem tanta dor. Conseguiu ver o sol pela primeira vez em anos, e notou que no horizonte há muito mais do que o seu pequeno mundo lhe mostrava. Ele não sabia bem o porquê ou como, mas sabia que devia sua vida a ela, e certamente faria de tudo para vê-la feliz, para protegê-la de todo mal que há no mundo, e para ama-la imensamente por toda vida.
Mas nada foi como ele imaginou.
Certo dia, Isabelle lhe visitara no orfanato levando deliciosos lanches como de costume, e ficaram conversando por horas, trocando afetos e caricias, até que ela anunciou sua partida, já estava tarde, e seus pais ficariam preocupados, ela teria de voltar para casa. Ela se foi, arrancando suspiros de Heitor que já com saudades, aguardava ansiosamente a próxima visita. No dia seguinte, na hora combinada, ele a esperou no jardim, mas ela não apareceu. Ele a esperou até o anoitecer, sem sinal de sua vinda. Decepcionado ele retornou ao seu quarto confuso e preocupado - “O que acontecera?” - Ele se perguntava. Decidiu então que lhe faria uma visita no dia seguinte de manha.
Logo cedo enquanto todos ainda dormiam, ele pegou sua mochila com apenas alguns pertences e a lançou nas costas, começando sua longa caminhada até a casa de sua amada. Após vários minutos de caminhada, chegou a humilde residência de Isabelle que apesar de sua aparência peculiar não fora isso que lhe chamou a atenção, e sim policiais e algumas pessoas abraçadas, sentidas, chorando pela perda de alguém. Logo o coração dele se acelerou descompassado, e sua mente se agitou como um mar revolto, agoniado com a possibilidade de que Isabelle estivesse morta.
Ao se aproximar, sua pior suspeita e medo estava diante de seus olhos. Isabelle estava deitada no chão, com sangue em seu vestido, cabelos e mãos... Estava morta. Sem pestanejar ele correu até ela, e segurou seu corpo sem vida, chorando descontroladamente pela sua perda inestimável. Os pais sem entender o puxaram para longe do corpo da filha, lhe fazendo perguntas como:
-Como se atreve? – A mãe dela resmungou entre lagrimas.
-Quem é você rapaz? – O pai dela indagou furioso.
Mas ele não ligava para nenhum dos presentes, sua dor o cegava de tudo. Ele a abraçou mais uma vez e lhe sussurrou no ouvido: Eu vou te encontrar. Mesmo sabendo que ela não escutaria, ele naquele momento fez uma promessa que cumpriria com seu próprio sangue. Limpou algumas lagrimas que lhe embaçavam a visão e se foi, deixando a todos os presentes confusos.
Ele não podia crer, num dia estava feliz e realizado, com sua amada viva e sorridente como sempre, e no outro lhe foi tirada cruelmente. Ele andou mais rápido do que pretendia de volta para o orfanato. Chegando lá, foi direto à biblioteca e começou a pesquisar alguns livros como:
 - Vida após a morte
- Para onde vamos depois de morrer?
- Rituais para comunicação com os espíritos
- Almas perdidas
- Homicidas e suicidas para onde vão?
Munido de tantos livros, passou toda manha e grande parte da tarde estudando a morte, estudando um meio de resgata-la desse cruel destino. Até que um livro lhe chamou a atenção “O astral – lar dos espíritos”. Lá o autor contava um pouco sobre as colônias, os umbrais, as habitações e o modo de vida similar ao da terra. Disse que é possível encontrar parentes e amigos por lá. Apesar do grau de evolução de cada um ser diferente, e alguns não permitir que eles se reconheçam, lembrem-se de suas vidas ou se mostrem na forma como eram em vida, eles são as mesmas almas que um dia habitaram um corpo. E assim passou o restante da noite lendo, e estudando ‘o astral’, porem adormeceu em cima dos livros.
O sol ainda não mostrava sinal de apontar no horizonte quando ele acordou e notou que dormira na biblioteca. Lembrando-se de tudo que lera e estudara já bastou para que ele tivesse um plano em mente. Tudo que lera era o suficiente para se preparar para sua jornada atrás de Isabelle. Ele a ajudaria naquele novo estado de espirito e ficaria com ela, cuidaria para que não sofresse, pois não merecia.
Levantou-se e foi até a cozinha, onde guardavam os produtos de limpeza, e procurando um pouco encontrou o que procurava... Veneno para ratos. Pegou duas colheres e despejou o conteúdo do veneno num copo, o encheu de leite e tomou. Sentou-se no chão esperando que o veneno fizesse efeito, enquanto em sua mente só tinha espaço para Isabelle. Ela o salvara uma vez, agora ele a salvaria. Não demorou muito para que sentisse horríveis dores no peito, falta de ar e convulsões, após alguns minutos agonizando... Ele morreu.
Estava tudo escuro, tudo ainda doía como antes, seu nome era chamado diversas vezes por algumas vozes que ainda não reconhecia.
-Acorde! Heitor o que você fez!?
Cada palavra dita criava um ecoo em sua mente... Acorde, Acorde, Acorde!- Ele esforçou-se para abrir os olhos, e viu-se no chão da cozinha ainda. – Será que o veneno não funcionou? – Ele se perguntava. Ao se levantar cambaleante viu algo que não estava nos livros... Seu próprio corpo ainda deitado, desacordado e sendo balançado pelas cozinheiras do orfanato. Sim, deu certo, ele já estava do outro lado. Assustado por ver seu próprio corpo, mas orgulhoso pelo andamento de seu plano, ele se afastou de lá, tentando lembrar-se como chegar até Isabelle. Andando na rua fria, iluminada por pequenos raios de sol e pouco movimentada por paramédicos, ambulância e policia, tudo que ele conseguia pensar era nela. Seu sorriso, seu jeito, seus abraços e caricias e de todo tempo que passaram juntos. Tais lembranças injetaram uma dose de coragem nele, que disse baixinho – Já estou indo Isabelle!
Ao pensar nela tão fortemente, ele se sentiu ‘puxado’ por algo, que o levou a um lugar até então desconhecido. Tudo era escuro, havia arvores sem folhas, secas e sem vida, poças d’agua pelo chão, como se tivesse acabado de chover, o céu estava escuro como se anunciasse numa tempestade sem fim, e mais a frente vultos caminhavam como zumbis. Alguns balbuciavam frases sem sentido, outros gritavam para o nada, outros ainda gemiam e choravam. Ele ainda não sabia, mas estava no umbral.
-Ela esta aqui?- Ele se perguntou.
Foi andando lentamente, procurando entre todos que via o rosto dela, ou ao menos algum sinal. Enquanto procurava se sentia cansado, como se lhe faltasse o ar, sentia por vezes dores no peito e até sede, mas nada disso o faria parar, ele fizera uma promessa e cumpriria. Passou varias horas que pareciam dias procurando por ela, lagrimas de saudades rolavam em seu rosto, imagens de como ele a vira no chão, cheia de sangue, com os olhos cerrados e corpo sem vida o partia no meio de tanta dor. – O que acontecera com ela? Quem fizera tamanha crueldade?- Ele indagava inconformado.
Após dias procurando sem sucesso ele cedeu ao cansaço e tristeza. Esse lugar parecia ser infinito! Por mais que andasse nada parecia mudar, e pior ainda, sem sinal dela. Ele nunca fora um rapaz religioso, nem ao menos acreditava totalmente que havia um Deus, mas nesse momento, juntou toda fé que lhe restava, olhou para o céu e suplicou: Deus! Ajude-me a encontra-la! Quero cuidar dela... Não quero ficar sozinho. Seu pranto se tornou mais forte, enquanto ele socava o chão debaixo dele, com raiva por tudo isso, com saudades e com a maior dor que jamais imaginou sentir, ele ouviu:
-Precisa de ajuda meu irmão?
Essas palavras o assustaram, pois todos lá pareciam ter perdido a lucidez para formar qualquer frase lógica para iniciar uma conversa. Ao se levantar e fitar quem havia pronunciado aquela frase se deparou com um rapaz jovem, talvez tão jovem quanto ele. Tinha cabelos enrolados e curtos, negros, pele parda, olhos negros, e vestia calca e camisa branca. Porém antes mesmo de Heitor questionar quem ele era, esse sorriu amigavelmente e respondeu:
-Sou Moura. Vim das colônias ajudar os irmãos aqui no umbral. Ouvi seu pranto. – Ele sorriu amigavelmente.
-Umbral? Sabe onde está Isabelle? – Ele disparou.
-Não se preocupe com ela nesse momento, cuidaremos de você primeiro. Venha. – E lhe estendeu a mão.
Heitor pouco desconfiado de tanta gentiliza hesitou, porém realmente precisava de ajuda, e precisava procurar Isabelle. Relutante ele pegou a mão de Moura, aceitando sua ajuda. Esse o abraçou e voou por cima do umbral, fazendo o caminho de volta para as colônias. Em poucos minutos eles chegaram a uma instalação peculiar, um prédio de tijolos escuros, com uma porta pequena de madeira. Moura lhe apresentou outros dois companheiros, João e Daniel que o acompanhariam a partir dali.
Eles adentraram o local, que tinha apenas pequenas velas espalhadas por todo local, como se fosse uma espécie de caverna ou câmera. Ao prosseguir por um estreito corredor João lhe indicou uma cama simples, onde ele deveria descansar.
- Eu preciso encontrar Isabelle! Vocês a conhecem? Por favor, me ajudem! – Ele disparou desesperado por encontrar sua amada.
- Sim, ela chegou há poucos dias, esta se recuperando. Assim que apresentar melhora, eu o levarei lá pessoalmente, não se preocupe e descanse.
Muito relutante, mas realmente cansado, ele se deitou e logo adormeceu. Sonhou com Isabelle naquele umbral, suja, cheia de sangue, chorando e pedindo ajuda, sem que ninguém desse ouvidos a ela... Acordou com os olhos cheios d’agua, quando notou que ela estava sentada próxima a sua cama, o observando dormir.
-Isabelle?!
Ele se levantou rapidamente e a abraçou forte, lagrimas e mais lagrimas escorriam de seu rosto emocionado, a saudade e a dor se misturavam naquele momento, mas nada mais importava, ele finalmente a encontrara.
-Heitor, como veio parar aqui? Você também morreu? – Ela indagou confusa.
-Sim, vim por você. – Ele falou sorrindo.
-Você se matou... Por mim? – Ela questionou impressionada.
- Eu não podia perdê-la... Te amo muito e prometi que nunca te deixaria sozinha, e não vou deixar nunca mais.!
Ela emocionada, o abraçou fortemente, e respondeu.
- E não importa para onde você vá, eu sempre vou te achar. Te amo.


Nádia Ramos.